Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 91 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

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O deslizante cisne destas águas,

nem simbolista nem parnasiano;

a tartaruga em si mesma trancada;

as rêmiges de fogo no viveiro;

o cris da areia em solas transeuntes;

o guarda que de inerte se assemelha

às árvores, e árvore é com sua farda;

o macaco brincando de ser gente;

a foto de jornal sobre o canteiro;

essa flor que nasceu sem dar aviso

nos ferros rendilhados do gradil;

a caixa envidraçada de empadinhas

e cocadas baianas logo à entrada;

o ver, em si, como ato de viver;

o perder-se e encontrar-se nas aleias,

no entrelaçar de curvas sombreadas,

de onde espero surgir alguma ninfa

sem que surja nenhuma (e continuo

procurando a metáfora do sonho);

o barquinho alugado por sessenta

minutos, e o perfume, que é gratuito,

de resinosos troncos tutelares

desta gentil paisagem recolhida;

uma cantiga — ó minha Carabu… —

entoada à distância e logo extinta;

o torpor que a meu ser eis se afeiçoa

na vontade de relva, de reflexo,

de sopro, de sussurro me tornar;

a ausência de relógio e de colégio,

de obrigação, de ação, de tudo vão.