Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 155 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Jornal falado no Salão Vivacqua

 

Garotas de Cachoeiro civilizam

nosso mineiro burgo relaxado.

No salão todo luz chega o perfume

das roseiras da Praça. Burburinho.

Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos

escritores da nova geração.

São jornalistas esta noite. A bela Angélica,

a suave Edelmira, a grácil Mariquinha

assim o determinam. Milton Campos

abre o Jornal Falado. Flui a verve

de seu editorial. Na sua voz,

a política é um jogo divertido

de punhais cetinosos que se cravam

sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,

perremisticamente golpeada,

que já morreu: continua deputado.

De Abgar, primeira página, o soneto,

mais lapidado que diamante,

recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera

tanger assim o lírico instrumento,

decerto conquistara

todas as do planeta moças lindas!

Um êmulo romântico se aproxima:

é Batista decassílabo Santiago:

“Ah, saudade que vive me enganando

e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo

as folhas mortas em que vou pisando…”.

Jornal é só poesia? Nada disso.

João Dornas traça a viva reportagem

urbana. Que parada,

achar acontecimentos onde nada

acontece, depois de Rui Barbosa!

Ele inventa, ele cria? Fatos raros

baixam do lustre, pulam no tapete

e Nava, prodigioso desenhista,

risca os perfis, os gestos, os lugares.

Delorizano, grave,

fala de ciência,

o Romeu de Avelar conta do Norte.

Aquiles é o cronista social:

noivados e potins e flertes surpreendidos

na segunda sessão do Odeon… Caluda!

Alguém pode não gostar. João Guimarães

é o nosso humorista. João Alphonsus

inicia o romance-folhetim:

em minutos tem princípio, meio e fim.

Eis chega a minha vez. A minha vez?

Mas como? se eu esperava não chegasse

e lá pela meia-noite o sono embaciasse

os anúncios da quarta página, final…

Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente

nas oficinas impediu

saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.