Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 161 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

A visita do rei

 

I

 

Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,

onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,

burocratas, estudantes, pés-rapados.

Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,

primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.

Não tem coroa de rei, barbas formidáveis

de rei, armadura de rei, resplandecente

ao sol da Serra do Curral.

Não desembainha a espada para enfrentar

como fazia há pouco os hunos invasores

de sua pátria.

É um senhor alto, formal, de meia-idade,

metido em uniforme belga,

ao lado de outro senhor de pince-nez

que conheço de retrato: o Presidente do Estado.

Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.

Não é um Carlos Magno.

Vem no carro a Daumont de dois cocheiros

e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.

No carro seguinte, como convém eternamente

às mulheres, vejo a Rainha,

não aparição sublime das iluminuras

(ai, que falta nos faz a Idade Média),

mas a distinta burguesa ao lado

do Presidente compenetrado da República.

Então é isso: tudo igual,

sangue azul e plebeu?

Pompas republicanas: moderadas.

Tenho de recriar — reminiscências literárias —

vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.

 

II

 

A coroa lá está, na Praça do Poder

(não sei por que, se chama Liberdade).

Coroa imensa, de dez mil

lampadazinhas elétricas multicores.

À noite, é tudo festa na cidade.

Cinema grátis para o povo

na efervescente Praça Doze.

Fogos de artifício e de feitiço

para susto de cisnes e marrecos

no Parque Municipal.

Bandas de música explodem

em cada coreto, mesmo sem coreto.

Clarinar de paradas militares,

multiplicadas pelo ouvido e olhar.

De Norte a Sul, de Leste a Oeste,

mesmo do separatista Triângulo irredutível

que não corteja Belo Horizonte,

acodem povos a conferir o Rei.

Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.

Madame Olímpia, a respeitável,

faz a mais gorda féria do seu Éden.

Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita

monocordicamente, bravamente,

quartéis, escolas, tribunais e o mais.

Há um discurso em cada fraque,

um vivelerroá em cada boca

e o desaponto de encontrar

no rei lendário o homem comum.

(Eu não disse que os reis não são mais reis?)

III

 

— Majestade, aceite esta garrafa de licor

estomacal, do meu fabrico.

O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)

o presente do farmacêutico Artur Viana.

Antes, na mesa oficial, degusta

macucos truffés à la Royale

e dorme cedo. Amanhã cedinho

irá a Morro Velho conhecer

o sombrio trabalho subterrâneo

que produz ouro para o mundo

e morte precoce para mineiros.

Voltando à superfície, Mister Chalmers

oferta-lhe desta vez

macucos truffés au jus d’orange.

É comida diária no Brasil?

Resta algum macuco pra contar?

O Rei repousa a vista

no quadro que lhe deu Honorário Esteves.

Escuta, sonolento,

a orquestra vinda do Rio expressamente

para abemolar sua visita.

Silêncio: Sua Majestade vai dormir

em cama de Napoleão 1o, cópia exata

feita por Leandro Martins & Companhia.

 

IV

 

O Governo impa de orgulho:

as refeições de Suas Majestades

quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.

Os landolés de seus passeios

vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.

A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,

multi-ilumina as ruas e fachadas.

A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,

regalada ao Rei,

é obra de arte de Oscar Machado,

joalheiro do Rio de Janeiro

(mas a madeira de lei é pura Minas).

Pura Minas, o solitário da Rainha

trabalhado no Rio de Janeiro

pelo mesmo Machado, mas brotando

do chão mineiro de Coromandel.

Não foi possível, é pena, vir do Rio

o Pão de Açúcar nem o Corcovado

nem a baía… mas demos ao Rei

o mais perturbador, o mais fantástico

entardecer da cidade-coleção

de crepúsculos indescritíveis.

 

V

 

E assim todos vivemos nossa vida,

nossa vidinha, como é nosso dizer,

entrelaçada no viver do Rei.

A metros de distância um Rei respira,

almoça, fuma, escova os dentes,

coça a cabeça como nós coçamos.

Falta somente o Rei aparecer

no Bar do Ponto e junto ao Professor

Zé Eduardo, de ferino verbo,

comentar os erros de francês

dos oradores a quem a lição

de Mestre Jacob pouco aproveitou.

Não é de muita fala o Rei, parece,

mas quem resiste ao calmo prosear

daquele centro da malícia urbana?

Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos

ponderar os túrbidos sucessos de Manhuaçu: três ou quatro mortes

por questões de terras ou de política.

Isso também ocorre lá nas Flandres?

Como é, o câmbio? É, está baixando,

quase não exportamos, e trazemos

tudo da Europa, desde o sabonete

e o vinho até as polonesas…

Seu Rei e nosso amigo, vamos

mudar de assunto?

 

VI

 

Afinal segue o Rei, segue a Rainha,

seguem condes, barões e diplomatas

rumo a São Paulo.

Que alívio, suspender tanta folia,

tanto protocolo misturado

ao nosso visceral esteja-a-gosto.

Descansa o Rei de nós,

e dele descansamos.

Mas uma coisa fica em mim,

espectador quase repórter.

Uma coisa entre rosas, no jardim

versaillescamente plantado em seu honor.

É um som infantil, puro, no ar,

e não se desvanece:

coro de seis mil vozes entoando

o hino ensaiado com capricho

o mês inteiro nas escolas:

Aprédessiécles desclavage

lebelgesortáditombô…

lerroá laloá lalibertê.

Ao ouvi-lo o Rei empalidece,

a Rainha derrama duas lágrimas.

Crianças de 1920: a Brabançonne casa-se com Ipirangasmargensplácidas,

e na Pensão de Dona Teresinha,

à noite, solitário no meu quarto,

não lembro o Rei, lembro o coral.