Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 98 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Começar bem o dia

 

A missa matinal, obrigação

de fervor maquinal.

 

Em fila religiosa penetramos

na haendeliana atmosfera do órgão,

no incenso do recinto.

Cada um de nós pensa em outra coisa

diferente de Deus.

Ai, nosso Deus compulsório!

Proibido olhar o fundo da capela

onde rezam as moças de Friburgo,

as inacessíveis, castelanárias

moças friorentas de Friburgo.

Alguma delas me vê, sabe que existo?

Um dia notará que penso nela,

sem que eu saiba sequer em qual eu penso?

 

Se acaso, prosternado,

eu virasse o pescoço e vislumbrasse

entre rostos o rosto que me espera

e ele me sorrisse,

a vida era de súbito radiante,

o colégio era a Grécia, a Pérsia, o Não Narrável.

 

Baixo, entanto, a cabeça,

ouço a voz do oficiante, monocórdia.

Convida-me a pastar arrependimento

de faltas nem de longe cometidas,

obscuros crimes em ser.

Moça alguma verei no só relance de entrada e saída, em fila cega.