Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 59 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O melhor dos tempos

 

Bailes bailes bailes

em nossa belle époque.

Em casa de João Torres

há saraus constantes.

Na de Chico Cândido,

na de Emílio Novais,

na de Zé Carvalho,

a valsa espirala

suas curvas lentas.

Sempre a serenata

prateia o silêncio

dos casarões altivos.

A flauta flautíssima

de Mário Terceiro

faz terremotos líricos.

Vavá, Clínton, Astolfo,

mais Totoque e Lilingue

rogam suavemente

que Stela abra a janela

e abrigue corações

transidos de frio,

desfeitos em música.

Quem ousa, noturno,

furtar jabuticabas

em quintais caninos,

é para deixá-las,

votivas,

no peitoril das deusas de boa família,

anonimamente.

Já de madrugada

os meigos ladrões

e magos cantores

lá vão degustar

os pastéis de queijo

de João Bicudo,

o licor discutível

de Zé Pereira.

Manhã rósea, passa

o batalhão infantil

(Minervino comanda)

e bate continência

às gentis moçoilas.

Tudo é mimo, graça.

Belle époque é fato

da história mineira.