Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 180 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Redator de plantão

 

Opereta no caminho do jornal.

Se vou à Clara Weiss não faço artigo

de fundo, bem ventrudo, como quer

o recado do Palácio do Governo.

Se faço o artigo da gazeta oficial,

perderei Clara Weiss e as mulheronas

que em seu redor alçam pernas cantatórias.

 

Tudo na mesma rua: teatro, redação,

dever, emprego, música ligeira.

Nem todo dia Strauss espalha em Minas

os eflúvios da valsa vienense,

e eu aqui, nesta mesa redatora,

a proclamar que sem Minas altiva

a República não acha salvação.

 

É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes

por causa da campanha eleitoral.

Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais

lembrança não deixou em meus ouvidos

de Chopin e Mompou, pois me tocou

fazer na mesma hora o necrológio

do senador Pimpim, glória mineira.

De madrugada, findo o meu trabalho,

eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,

dorme Franz Lehar na lembrança musical

de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas

do infrequentável Teatro Municipal,

e eu transporto para casa esse remorso de ser escriba, inconvicto escriba oficial.