Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 64 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Os velhos

 

Todos nasceram velhos — desconfio.

Em casas mais velhas que a velhice,

em ruas que existiram sempre — sempre! —

assim como estão hoje

e não deixarão nunca de estar:

soturnas e paradas e indeléveis

mesmo no desmoronar do Juízo Final.

Os mais velhos têm 100, 200 anos

e lá se perde a conta.

Os mais novos dos novos,

não menos de 50 — enorm’idade.

Nenhum olha para mim.

A velhice o proíbe. Quem autorizou

existirem meninos neste largo municipal?

Quem infringiu a lei da eternidade

que não permite recomeçar a vida?

Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade

de ser também um velho desde sempre.

Assim conversarão

comigo sobre coisas

seladas em cofre de subentendidos

a conversa infindável

de monossílabos, resmungos,

tosse conclusiva.

Nem me veem passar. Não me dão confiança.

Confiança! Confiança!

Dádiva impensável

nos semblantes fechados, nas felpudas redingotes,

nos chapéus autoritários,

nas barbas de milênios.

 

Sigo, seco e só, atravessando

a floresta de velhos.