Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 28 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Turcos

 

Os turcos nasceram para vender

bugigangas coloridas em canastras

ambulantes.

Têm bigodes pontudos, caras

de couro curtido,

braços tatuados de estrelas.

Se abrem a canastra, quem resiste

ao impulso de compra?

É barato! Barato! Compra logo!

Paga depois! Mas compra!

 

A cachaça, a geleia, o trescalante

fumo de rolo: para cada um

o seu prazer. Os turcos jogam cartas

com alarido. A língua cifrada

cria um mundo-problema, em nosso mundo

como um punhal cravado.

Entendê-los quem pode?

 

Mas Abrãozinho adolescente

foge de casa, esquivo, em seu segredo.

É capturado, volta. O velho Antônio Abrão

decreta-lhe castigo:

uma semana inteira no balcão,

cabeça baixa, ouvindo

perante os brasileiros

terríveis maldições intraduzíveis.

 

A turca, ei-la que atende

a fregueses sem pressa, dá de mamar, purinha, a seu turquinho

o seio mais que farto.

Jacó, talvez poeta

sem verso e sem saber que existe verso,

altas horas exila-se

no alto da cidade, a detectar

no escuro céu por trás das serras

incorpóreas Turquias. E se algum

passante inesperado chega perto

Jacó não o conhece. Não é o mesmo

Jacó de todo dia em sua venda.

É o ser não mercantil, um elemento

da noite perquirinte, sem fronteiras.

 

Os turcos,

meu professor corrige: Os turcos

não são turcos. São sírios oprimidos

pelos turcos cruéis. Mas Jorge Turco

aí está respondendo pelo nome,

e turcos todos são, nesse retrato

tirado para sempre… Ou são mineiros

de tanto conviver, vender, trocar e ser

em Minas: a balança

no balcão, e na canastra aberta

o espelho, o perfume, o bracelete, a seda,

a visão de Paris por uns poucos mil-réis?