Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 121 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Direito de fumar

 

O pensamento de cigarro

vem, ondulante, frequentar-me,

eu que não fumo.

Bem que o pai podia consentir:

“O 74 está crescido,

pode fumar dois Sônia por semana”.

Assim decide a lei,

aos Grandes permissiva,

quando o pai autoriza esse limite.

Privilégio de Grandes, e sou Grande.

Hei de fingir que fumo, se puder

levar à boca este direito

e à vista de todos a eminência

de ser fumante às claras.

 

Mas se eu pedir ao pai e ele me nega?

Pior: se ele concede?

Não sei, não sei tragar

(tragar, essencial entre varões).

Abomino o que sonho, me divido

e dividido entro na conjura

escusa dos fumantes clandestinos.

 

Atento às numerosas portas de privadas,

o Prefeito não vê que em cada uma

no tampo da latrina

um toco de cigarro está à espera

de ser fumado e conservado

para outro fumante e mais um outro até que apenas cinza

desapareça na descarga.

Um infinito resto de cigarro,

mais duradouro que o cigarro inteiro,

e ai de quem esgote essa riqueza

ainda a tantos outros destinada.

 

Mas qual o desgraçado

a sair de boca aberta, revelando

o cheiro do prazer, ou que lá dentro

fez soltar a treda fumacinha

que a discrição das portas atravessa

e acaba com a festa das baganas

antes que eu (e sou Grande) participe?