Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 167 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

As moças da Escola de Aperfeiçoamento

 

São cinquenta, são duzentas,

são trezentas

as professorinhas que invadem

a desprevenida Belô?

São cento e cinquenta, ou mil

as boinas azuis e verdes

e róseas, alaranjadas

e negras também e roxas,

os lábios coracionais

e os tom pouce petulantes

que elas ostentam, radiosas?

De onde vêm essas garotas?

eu que sei?

Vêm de Poços, de São João

del Rei, Juiz de Fora, Lavras,

Leopoldina, Itajubá,

Montes Claros, Minas Novas,

cidades novas de Minas

ainda não cadastradas

no Dicionário Corográfico

de Pelicano Frade?

E são assim tão modernas,

tão chegadas de Paris

par le dernier bateau

ancorado na Avenida

Afonso Pena ou Bahia,

que a gente não as distingue

das melindrosas cariocas em férias mineiras?

Que vêm fazer essas jovens?

Vêm descobrir, saber coisas

de Decroly, Claparède,

novidades pedagógicas,

segredos de arte e de técnica

revelados por Helena

Antipoff, Madame Artus,

Mademoiselle Milde, mais quem?

Ou vêm para perturbar

se possível mais ainda

a precária paz de espírito

dos estudantes vadios

(eu, um deles)

que só querem declinar

os tempos irregulares

de namorar e de amar?

Ai, o mal que faz a Minas,

a nós, pelo menos, frágeis,

irresponsáveis, dementes

cultivadores da aérea

flor feminina fechada

em pétalas de reticência,

a Escola novidadeira,

dita de Aperfeiçoamento!

A gente não dava conta

de tanto impulso maluco

doridamente frustrado

ante a pétrea rigidez

dos domésticos presídios

onde vivem clausuradas

as meninas de Belô,

e irrompe essa multitude

de boinas, bocas, batons escarlates, desafiando

a nossa corda sensível.

Que faz Mário Casassanta,

autoridade do ensino,

que não devolve essas moças

a seus lugares de origem?

Chamo Seu Edgarzinho,

responsável pela Escola.

Que ponha reparo — peço-lhe —

nas crianças do interior

que ficaram sem suas mestras.

Convém restituí-las logo

à tarefa habitual.

Ele responde: “São ordens

do Doutor Francisco Campos,

nosso ilustre Secretário

de Educação e Cultura.

Carece elevar o nível

do ensino por toda parte.

Vá-se embora, não insista

em perturbar nossos planos

racionais”.

Vou-me embora. Já na esquina

a boina azul me aparece

sob o azul universal

que faz de Belô um céu

pousado em pelúcia verde.

Sua dona, deslizante

entre formas costumeiras,

é diferente de tudo

e não olha para mim

deslumbrado, derrotado,

que vou bobeando assim.

Não há professora feia?

Pode ser que haja. A vista,

até onde o sonho alcança,

cinge a todas de beleza,

e a beleza, disse alguém,

é mortal como punhal.