Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 171 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Praça da Liberdade sem amor

 

I

 

A praça dos namorados

é a praça do poder.

Saudades de Ouro Preto lacrimejam

entre penhascos de cimento

e o desejo (frustrado) de pegar na tua mão.

O guarda viu?

E se o bonde passar, com o pai da moça,

no flagrante do gesto?

Sopra na praça um vento de telégrafo.

No cerne do palácio, o homem invisível

espalha coletores

juízes

delegados militares

sobre as serranias mais enevoadas.

Chegam, chapéu preto — terno preto, os coronéis

para a súplica e a ronha de pigarro.

Não olham o verde, vão direto.

O lago não reflete

senão a renda de silêncio

que paira sobre a hora embalsamada.

Entram. Sussurram.

Ungidos saem para os municípios.

(Coreto?

A música estilhaça tico-ticos,

mas é só uma ruga, no domingo.)

À noite, todas as noites, impreterível,

a lua amortalha o poder, os canteiros, os guardas em gelada mansuetude. O amor, sempre iludido,

espera amanhã pegar na tua mão.

 

II

 

Tambores (já contei).

Evém o Rei, na armadura de herói de Flandres.

Carece recebê-lo em francês, com todas as honras,

ameninando a praça do poder.

Para longe os penhascos de mentira,

os itacolumis nostálgicos,

o timbre ouro-pretano amortecido.

A divina simetria explode em rosas,

repuxos a Le Nôtre

sem Le Nôtre.

Passa o Rei, passa a Rainha,

passa a ilustre comitiva,

as festas belgas passam, e começa

o footing ritmado dos vestidos.

Vitrina movente, vai e volta.

Não lhes toquem, porém, às namoradas

de sapatos brancos, branquejando

na aleia retilínea

sob as vistas de irmãos abengalados.

Será sempre, na praça poderosa

o não poder pegar a tua mão?

Quantos anos à espera neste banco

que se vai corroendo, enquanto a rosa

em desejo na haste é já ferrugem

e, no palácio, outro (invisível) homem

despacha delegados infinitos

para infinitos burgos dominados?

A mão vazia alisa o banco e tua ausência.