Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 168 de 193

Páginas do PDF

Boitempo: Esquecer para Lembrar

Mulher eleitora

 

Mietta Santiago

loura poeta bacharel

conquista, por sentença de juiz,

direito de votar e ser votada

para vereador, deputado, senador

e até Presidente da República.

Mulher votando?

Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?

O escândalo abafa a Mantiqueira,

faz tremerem os trilhos da Central

e acende no Bairro dos Funcionários,

melhor: na cidade inteira funcionária,

a suspeita de que Minas endoidece,

já endoideceu: o mundo acaba.

 

Ivone Guimarães, em Pitangui,

alcança igual triunfo. Salve, juízes

de Minas, impertérritos!

Amigo sou de Ivone e de Mietta.

Já vejo as duas, legislativamente,

executivamente,

a sorte das mulheres resgatando.

As amadas-escravas se libertam

do jugo imemorial,

perdoam, confraternizam, viram gente

igual a nós, no mundo irmão.

Façanha de duas mineirinhas.

Antônio Carlos, do Palácio do Governo,

bate palmas e diz: “Perfeitamente”.

Mas o Major Cançado, inconformado,

recorre da sentença.

Onde já se viu mulher votar?

Mulher fumar,

mulher andar sozinha,

mulher agir, pensar por conta própria,

são artes do Demônio, minha gente.

Major, ó Seu Major,

Minas recuperada te agradece.