Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 74 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Saber incompleto

 

— Mecê, cumpádi, já porvou

bunda de tanajura torradinha?

— De tanajura, cumpádi,

inté hoje não.

RESISTÊNCIA

 

O tísico

não tosse.

Não precisa tossir

para provar que continua tísico.

Rosto esverdinhado, barba por fazer,

pescoço envolto em lã xadrez,

roupa de brim dançante no esqueleto,

o tísico da cidade quando morre?

 

Cumprimentado de longe,

ninguém lhe aperta a mão.

Alguém já viu micróbios passeando

em seus ossudos dedos pré-defuntos.

 

Sua voz mal ouvida é som de longe,

de onde ninguém volta, ou só voltou

em véus de assombração. Terá morrido

o tísico, e transita,

pausado, de brim cáqui, em dia azul?

 

Morre de congestão o velho indagador,

de ataque morre súbito o fortudo

professor de ginástica. Morrem outros

de 20 anos, rapazes não marcados.

O tísico, vai tossindo, enterra todos.