Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 4 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Ferreiro

 

Filho do ferro e da fagulha

fulgurando na forja formidável

o seu fole afrouxou e sua força

em face do fiscal e da folhinha

de papel.

IMPÉRIO MINEIRO

 

Vêm da “corte”, vêm “de baixo”

as casimiras mais finas

as sedas mais celestinas

as requintadas botinas

de primeira comunhão

as porcelanas-da-China

os relógios musicais

os espelhos venezianos

os lustres, os castiçais

as banheiras esmaltadas

as delícias enlatadas

os biscoitos coloridos

as esdrúxulas bebidas

de rótulos ilegíveis

chocolates divinais

quadriláteros de doce

cristalizado irisado

vêm revistas e jornais

os rondós parnasianos

as orações magistrais

do senador Rui Barbosa

vêm mulheres fulminantes

em reluzentes postais

com vestidos transparentes

muito acima do soalho

e do sonho dos meninos

vêm cometas e vêm mágicas

de berliques e berloques vêm senhores de bigode

lourenço, fala de estranja,

fazendo chover na serra

o chuvisco de dinheiro

em troca apenas de terra

já farta de dar feijão

vem “de baixo”, vem do Rio

toda a civilização

destinada especialmente

a nossa vila e parentes

e nossa mor importância.

Bem que o Rio é nosso escravo.

Somos senhores do mundo

por via de importação.