Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 147 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

O lado de fora

 

Sexta-feira. Sessão Fox

rebrilha de gente fina.

Fico do lado de fora.

Não tenho dinheiro agora.

 

Agora ou toda a semana?

O mês inteiro? Meus livros

troquei por alguns mil-réis:

eram dedos, não anéis.

 

Não deu para ver a fita

da ofídica Theda Bara.

Que importa a fita? Importante

é a cicuta deste instante.

 

A moça de meus cuidados,

mas de mim tão descuidada,

surge, camélia ridente.

Finjo ser indiferente.

 

Entra, nuvem colorida,

entra, música de corpo.

Mal sabe que estou ali,

hirto, magro, como um I.

 

Nem me vê. Não me verá.

Cada pétala de seda

do seu todo natural

me faz delicioso mal.

 

Não tem sentido, ou tem muito,

esperar por duas horas que ela saia do cinema

como sai, de mim, o poema.

 

Aprendo a lição tortuosa

de curtir a dor das coisas.

O que ela viu, tela e enredo,

não vale este meu brinquedo,

 

o pungitivo brinquedo

de pensar na moça em vão,

do lado de fora, o lado

que ficará do passado

 

e vige ainda: poder

de sentir, mais que o vivido,

o que pudera ter sido,

o que é, sem jamais ser.