Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 164 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Ode ao Partido Republicano Mineiro

 

Ó P.R.M.,

onde estás, que não vejo, mas te sinto

circular pelas veias da cidade?

 

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo

dos que à tua sombra se aninharam

na direção do público negócio!

 

Sogro gentil, pai amoroso

de bacharéis, de médicos, engenheiros

em começo indeciso de carreira,

tu dás o pão, dás a pancada

conforme o nosso vário proceder:

aos correligionários, pão de ló,

aos adversários, pontapé

em sensível, recôndito lugar.

 

Ai de quem infringir

teu estatuto sacrossanto, vigente

sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

 

Pobres filhos de Eva, deserdados

do teu peito, os trânsfugas jazem mudos

à porta lacrada dos bancos

ou no corredor deserto da farmácia

da oposição.

 

Os bem-amados, estes, já se empossam

em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas

à Comissão Divina Executiva

e, mais alto ainda, ao inatingível Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.

És a fonte, és a linfa, és a flórea

mansão dos deuses, entre renques de palmeiras

moldurada.

 

Teu espírito invisível e concreto

paira sobre os crepúsculos magnificentes

da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

 

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,

em cada fícus-benjamim, em cada xícara

de café do Bar do Ponto: ouves, registras,

despedes teu raio sem o mínimo trovão,

e como ele reboa no interior da vítima!

 

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,

gritando em frente à sacada política do Grande Hotel

os morras que é de uso em comícios inflamados

antes que irrompa a cavalaria.

 

E nem me vês a mim, verme-plantinha,

tão alto te agigantas.

Afinal, sem eu mesmo saber como,

por mão de Alberto serei teu redator

no obscuro jornal que em teu nome se imprime.

(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos

ao partido terrível. E ele me sustenta.)