Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 173 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Vitória

 

I

 

Como se eu quisesse

abater com o peito uma torre de ferro.

 

Como se eu esperasse

entrar dentro de seus olhos e me sorrir.

 

Como se eu sentisse

por mim o amor que ela não sente

e o fosse ela sentindo, à medida

em que o meu rosto se mostrasse amado.

 

Seis meses nesta batalha

perdida sem começar.

 

II

 

É, este amor não tem jeito.

 

Meu peito bate na laje.

A laje, não respondendo,

acrescenta meu amor.

 

É, este amor não tem jeito.

 

Seis meses enfim completos,

mereço chegar à boca

sorridente-negativa

que retumbalha em meu peito.

 

Foi naquele corredor.

Naquela tarde. Naquele

minuto sem uma flor entre painéis burocráticos

de perfeito desamor.

 

Foi concessão de cansaço?

Prêmio de merecimento?

Sei lá o que foi. O amor

inebriou-se no beijo

que dei nela e que me dei

em sua boca gelada.

Valeu nada. Valeu tudo?