Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 94 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Segundo dia

 

Sou anarquista. Declaro honestamente.

(A tarde vai cerzindo no recreio

o pano de entrecortada confissão.)

Espanto, susto. Como?

O quê? Por quê? Explica essa besteira.

 

A solução é a anarquia. Sou

anarquista. Nem de longe vocês captam

o sublime anarquismo. Sou.

Com muita honra. Mas vocês, que são?

Vocês são uns carneiros

de lã obediente.

 

Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista

a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!

(Medo de mim, oculto em gozação?)

 

O bicho mau, o monstro repelente

conspurcando o jardim de Santo Inácio.

Avançam. Topo a briga. Me estraçalho

lutando contra todos. Furor mil.

 

Morro ensanguentado. Não. Não mato algum

nem me tocam sequer.

Negro e veloz, chegou a tempo

o Padre, e me salva do massacre,

porém não do apelido: o Anarquista.