Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 90 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Parque municipal

 

I

 

O portão do colégio abre-se em domingo.

Toda a cidade é tua e verde.

O Parque o barco o banco o leque

do pavão em grito e cor fremindo o lago

sem que as estruturas de silêncio

desmoronem.

Quem passa? Nada passa. Aqui o tempo

aqui o ramo aqui o caracol

em ar benigno se entrelaçam, duram

eternamente a vez de contemplá-los.

Voltar? Para onde e quê, se existe onde

além deste? se em vão as matemáticas,

as químicas, preceitos…

És o Parque, total.

Nem desejas ser planta, estás embaixo

de toda planta, simples terra.

Por que se destaca da palmeira

o pederasta

e faz o gesto lúbrico, sorri?

 

II

 

A natureza é imóvel.

A natureza, tapeçaria

onde o verde silente se reparte

entre caminhos que não levam a nenhum lugar.

São caminhos parados. De propósito.

O lago, tranquilidade oferecida.

A pontezinha rústica de cimento

não é feita para ninguém passar

de um ponto a outro.

Feita para não passar.

A pontezinha sou eu ficar imóvel

por cima da água imóvel

na tapeçaria imóvel para sempre.

O barquinho da margem devia ser queimado.