Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 128 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Retiro espiritual

 

Padre Natuzzi, voz de ouro,

fala do céu, essa infinita aurora

a que seremos todos transportados

se.

 

Fala também do abismo arquimedonho

em que, a gordurosas culpas amarrado,

de ponta-cabeça irei precipitar-me

se.

 

Nem preciso escutá-lo.

É pregador tão célebre, sua prédica

penetra na consciência sem passar

por distraída orelha.

Já deliberei: a santidade

é meu destino.

 

Juiz não quero ser, nem artilheiro,

médico, romancista ou navegante.

Quero ser e vou ser: apenas

santo.

Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.

 

Em beatitude sorvo o almo silêncio

do pátio onde passeiam pensativos

os de ontem ruidosos palradores.

A alma! A alma! Que beleza é a alma!

 

Ela salva! E eu salvo com ela…

se não fosse

esse colega aí, rangente, a remoer em voz informativa autorizada

vidas de santos, único a falar,

perturbando a minha salvação.

 

E santo já não sou,

mas barro e palavrão,

humana falha, signo terrestre.