Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 186 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Morto vivendo

 

Aquele morreu amando.

Nem sentiu chegar a morte

quando à vida se abraçava

nem a morte o castigou.

Enquanto beijava o amor

a morte o foi transportando

nos braços do amor gozoso

sem desatar-se a cadeia

de vida enganchada em vida.

Aquele morreu? Quem sabe

o que foi feito do amante

alçado em coche de chamas

ou carruagem de cinzas

no ato pleno de amar?

Não corrigiu a postura,

não voltou aos intervalos

de solitude na espera,

não repetiu mais os gestos

fora do rito amoroso.

Morreu completo, no êxtase

de estar no mundo e extramundo.

Que sabe a morte do abraço

paralisado na luz

do quarto aberto ao amor

e defeso a tudo mais?

E se continua vivo

e mais do que vivo amando

sem paredes e sem ossos nos vazios espaciais,

não sei como, não sei quem?