Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 81 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Ombro

 

Se triste é ir para o colégio distante,

fica mais triste ainda

ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:

 

“Estou perdido! Nunca mais levanto!

A quebra dessa casa é a minha morte”.

O fragor do trem martela seu desespero,

ou seu desespero rilha nos trilhos

e, na caldeira, queima?

 

Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!

Também estou perdido: morte no internato.

Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer

embora ninguém perceba

e ficarei sem ombro

para acalentar a minha morte.

Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.