Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 181 de 193

Páginas do PDF

Boitempo: Esquecer para Lembrar

Verbo e verba

 

É redação?

É academia, Parnaso?

Afonso Arinos cintilante,

Emílio Moura evanescente,

João Alphonsus calado-irônico,

Cyro dos Anjos expectante,

Horácio Guimarães, gravura a talho-doce

de uma remota, simbolista

Belo Horizonte.

Dois diários num só?

Boletim do P.R.M.,

clarim do Modernismo,

usina de poemas sem metro,

porta-voz mineiro de Mário de Andrade,

sentinela conservadora das Alterosas

políticas,

quem entende este asilo

de doidos mansos burocratas?

 

Alguém o entende: Eduardinho, o Bola,

gerente sem fundos

(como custa a Secretaria das Finanças

a soltar a magra verba oficial!),

cercado de vales por todos os lados,

sai à rua campeando

anúncios do depurativo Salsa, Caroba e Manacá,

do Cacturgenol para urinas escuras,

e faz intercalar o comunicado do Partido

com o salutar aviso de que o Pó Pelotense

é o único a evitar assaduras debaixo dos seios.