Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 175 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Companheiro

 

Batista Santiago, menestrel

a serviço do amor já sem balcões

escaláveis em tranças de mulher,

vai lapidando o sonho medieval

de revisor da Imprensa Oficial:

deixar provas de lado e atapetar

de sonetos de rima adamantina

a cama pucelar dessa menina-

-moça que mora em frente da pensão,

resguardada por três anjos ferozes:

o pai severo, o irmão violento e o cão.

 

Não teme Santiago esses perigos

nem quaisquer outros, forte e decidido,

mas a moça-menina sabe acaso

a carga de paixão que esconde um verso

sem direção possível nessa rua

de muros altos, ferros, cadeados?

Evola-se o poema em neutro quarto

de aluguel, e Batista, acostumado

a falar para ouvidos não ouvintes,

vai modulando líricas endechas.

 

Se o coração da jovem não alcança,

restam outras mulheres, e a esperança

de conquistar a que ele nunca viu.

Folhas Que o Vento Leva, suas trovas

assim dispersas giram pelos ares.

Outra moça, quem sabe? irá colhê-las.

Romântico, notívago, enluarado

peito pisoteado pelo amor,

entretanto cultiva o braço forte.

Quem no bar o provoque sabe disto:

é D’Artagnan, não mais o revisor.