Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 44 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

A Alfredo Duval

 

Meu santeiro anarquista na varanda

da casinha do Bongue, maquinando

revoluções ao tempo em que modelas

o Menino Jesus, a Santa Virgem

e burrinhos de todas as lapinhas;

aventureiro em roupa de operário,

que me levas à Ponte dos Suspiros

e ao Pátio dos Milagres, no farrancho

de Michel Zevaco, dos Pardaillan,

Buridan, Triboulet (e de Nick Carter),

ouço-te a rouca voz chamar Eurico

de nazarena barba caprichada

e retê-lo a posar horas e horas

para a imagem de Cristo em que se afirme

tua ânsia artesanal de perdurar.

Perdura, no frontispício do Teatro,

a águia que lá fixaste sobre o globo

azul da fama, no total desmaio

do teu, do nosso tempo itabirano?

Quem sabe de teus santos e teus bichos,

de tua capa e espada imaginária,

quando vagões e caminhões desterram

mais que nosso minério, nossa alma?

Eu menino, tu homem: uma aliança

faz-se, no tempo, à custa de gravuras

de semanais fascículos românticos…