Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 50 de 193

Páginas do PDF

Boitempo: Esquecer para Lembrar

Ei, bexiga!

 

Os chocolates em túnica de prata,

justa, recendem. A hortelã

das balas pincela um frio verdoendo

na boca.

Tudo vem de longe, de São Paulo,

para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.

 

E um homem desses vai morrer de varíola?

 

A Idade-média enrola a cidade

em cobertor de pânico.

Sete dias se fecham as portas

se acendem velas

sem leite sem pão sem saúde pública

joelhos em terra exortam a sagrada ira

a poupar os que não são italianos e fundaram

este chão de Deus sem bexigas.

Pereça, coitado, Seu Foscarini,

mas as velhas famílias se salvem.

 

Levam Seu Foscarini para o lazareto,

que não é lazareto, é um casebre desbeiçado

no campo onde a cobra pasta

vírgulas de tédio.

 

Nunca mais chocolates, licorinos

caramelos, magia de São Paulo?

Rezo por Seu Foscarini,

que milagrosamente se salva

e fecha a confeitaria.