Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 95 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Terceiro dia

 

Mamãe, quero voltar

imediatamente.

Diz a Papai que venha me buscar.

Não fico aqui, Mamãe, é impossível.

Eu fujo ou não sei não, mas é tão duro

este infinito espaço ultrafechado.

Esta montanha aqui eu não entendo.

Estas caras não são caras da gente.

E faz um frio e tem jardins fantásticos mas sem

o monsenhor, o beijo, a crisandália

que são nossos retratos de jardim.

Da comida não queixo, é regular,

mas falta a minha xícara, guardou

para quando eu voltar?

Ai, Mamãe, minha Mãe, o travesseiro

eu ensopei de lágrimas ardentes

e se durmo é um sonhar de estar em casa

que a sineta corta ao meio feito pão:

hora de banho madrugadora

de chuveiro gelado, todo mundo.

Nunca tomei banho assim, sou infeliz

longe de minhas coisas, meu chinelo,

meu sono só meu, não nesta estepe

de dormitório que parece um hospital.

Mamãe, o dia passou, mas tão comprido

que não acaba nunca de passar.

Um ano à minha frente? Não aguento.

Mas farei o impossível. Me abençoe.

E faz um frio… a caneta está gelada.

Não te mando esta carta

que um padre leria certamente

e me põe de castigo uma semana

(e nem tenho coragem de escrever).

Esta carta é só pensada.