Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 151 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Parceiro de Bach

 

A harpa de Rosa Ferraiol

apura ainda mais o Cravo temperadíssimo

em dó menor, em mi menor, prelúdio, fuga.

 

Mas que há com as tercinas?

Não fluem fácil como fio d’água.

Som intempestivo criva a sala.

Há mal-estar, rostos inquietos,

entre os seletos do Municipal.

 

Não se dá conta Rosa deste agravo

à pureza de Bach, e vai levando

os stretti, as leves colcheias, os alados

acordes melancólicos ou gaios?

A plateia começa a resmungar:

— Assim não! Mas que coisa! Está demais!

 

Está demais o grilo subversivo

que no teatro cheio põe cricrilos

nos arpejos celestes.

O guarda percorre camarotes,

corredores, lanterninha na mão, à sua caça,

e o ruído da caça se acasala

com Bach e grilo e riso incontrolável

dos melômanos: a Polícia vai prender

o grilo, tem gaiola para isto?

 

Caro João Sebastião, desculpe: em Minas

até os grilos amam fazer música.