Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 72 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Aniversário de João Pupini

 

Já vou dormir, não vou dormir.

No silente Caminho Novo,

sete tiros da carabina.

Eu nada escuto do meu quarto.

Ninguém escuta, de tão longe.

Mas adivinho sete tiros

estampados na noite fria.

 

É João Pupini festejando

seu natalício italiano,

atirando contra as estrelas

o chumbo gaio de estar vivo.

É João Pupini ameaçando

o sono azul do município,

o equilíbrio e a paz do mundo.

 

Já se eriça, irado, o bigode

marcial de Guilherme 2o.

O czar, o king George, Francisco

José e mais altas potências

protestam contra o despropósito

de João Pupini fazer anos

declarando guerra mundial.

 

O delegado de polícia,

sentinela internacional,

convoca seu destacamento:

“Eia, sus, ao Caminho Novo,

a prender o guerreiro doido,

que além de ser mau elemento vota sempre na oposição”.

 

Sua casa logo arrombada

a coronha, facão e ombro,

João Pupini dá o sumiço

pelos fundos de treva e brejo,

embolado mais a família,

pois lutar contra a Força Pública,

nem o ousara Napoleão.

 

Mas é preso nos vãos atalhos

em que zaranza atarantado,

e recolhido à enxovia

o formidando atirador.

Nem Deus te salva, João Pupini!

(fico cismando, no sem sono

de carabina, junho e noite.)

 

Solitário, incomunicável,

Pupini diz: “Vou suplicar

à autoridade justiciosa

o direito de fazer anos

e jovialmente celebrá-lo”.

Mas retrucam-lhe: “Assine e sele

petição na forma da lei”.

 

Onde papel, no úmido escuro

do xadrez todo enxadrezado

de feros ferros e ferrolhos?

Onde estampilha, Deus do céu,

se só uma barata sela,

no chão da cela, madrugada,

a prova de estar acordada?

 

Sem requerer, como provar

que, entre mil mortos e feridos

pela arma-fúria de Pupini, estão todos salvos, tranquilos?

Como explicar ao Presidente,

a Hermes, Pinheiro, Jangote,

que ninguém fez mal a ninguém?

 

Tiro de noite é novidade

na cidade sem distração

e noite por demais comprida?

O rádio está por inventar,

a televisão, nem se fala.

Quem tem fogo vai despejá-lo

na horta gelada, por que não?

 

Ainda há dias, rente ao quartel,

no rancho insone do Thiers,

tiros sem alvo pipocaram,

ninguém foi preso, até foi bom

ouvir alguém vencer o tédio

detonando a salva nervosa

que infundia vida ao mar morto.

 

Mas João Pupini, suspeitado

(suspeita, não: certeza plena)

de sorrir para os perdedores

da eleição presidencial;

João ruísta, João subversivo,

João celebrar seu nascimento

a poder de bala, o bandido?

 

Lá dorme João no chão sem lã.

Estou sentindo: a poucos passos

da cadeia ali bem em frente,

e dormirá tempos e luas,

se ruístas alvoroçados

não soltarem pelas quebradas

o latino grito: Habeas corpus.

(Que só mais tarde entenderei.

Por enquanto, perto de mim,

algo se passa, impercebido,

como sempre se passam coisas

no deserto Caminho Novo

ou

neste menino peito ansioso.)