Boitempo: Esquecer para Lembrar

Carlos Drummond de Andrade · Capítulo 139 de 193

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Boitempo: Esquecer para Lembrar

Hino ao bonde

 

Os derradeiros carros de praça

recolhem seus rocinantes esquálidos

à cocheira do esquecimento.

Os próprios cocheiros se desvanecem

no crepúsculo da Serra do Curral.

Meia dúzia de automóveis à sombra dos fícus

espera meia dúzia de privilegiados

que vão cumprimentar o Presidente do Estado

em seu bastião florido da Praça da Liberdade.

O mais? Andar a pé

quilômetros de terra vermelha sossegada,

e bondes.

Os caluniados bondes da Empresa Carvalho de Brito,

os admiráveis bondes, botas de sete léguas

de estudantes, funcionários, operários,

desembargadores, poetas, caixeiros.

O bonde, sede da democracia em movimento,

esperado com pachorra no Bar do Ponto

nos abrigos Pernambuco e Ceará,

o arejado, pacífico, oportuníssimo

salão onde se leem de cabo a rabo

o expediente das nomeações e demissões

nas páginas sagradas do Minas Gerais

e as verrinas amarelas dos jornalecos da oposição.

Bonde onde se conversa

a lenta conversa mineira de Ouro Preto,

Pirapora, Guanhães, Itapecerica.

Onde se namora debaixo do maior respeito, com olhares furtivos que o pai da moça não percebe.

(Ah! se percebesse!…)

Bonde turístico, antes que o turismo seja inventado.

Vamos dar a volta Ceará?

Por um tostão passamos em revista

palacetes art nouveau novinhos em folha,

penetramos no verde mistério abissal da Serra,

onde cada inseto é uma nota de música

e as águas gorgolejam em partita de Bach.

Por um tostão as lonjuras do Prado Mineiro,

onde ainda se escuta, se nascemos nostálgicos,

o pa-cá-pa-cá dos cavalinhos brincando de Derby.

Um tusta apenas e é a ridente Floresta,

seu Colégio Santa Maria, cheio de meninas

(ainda não se usa a palavra garota)

que vão num bonde mágico e nele retornam

para o rápido cruzamento em que, do nosso bonde,

sentimos passar a graça das sílfides

e o esvoaçar das libélulas

inalcançáveis.

É tudo inalcançável na cidade,

por isso mais lindo.

Viajamos pelos países modestos de Carlos Prates

e Lagoinha, pelo país violáceo do Bonfim,

vejo minhas primas meninas

se arredondarem no Calafate,

e há sempre uma cor a descobrir,

um costume singelo, o portão de um alpendre

com pinturas a óleo de castelos

que são o outro lado de Minas: o irreal.

Andar de bonde é meu programa,

voltar do fim da linha,

mudando eu mesmo o banco para a frente.

Confiro os postes, as pessoas pontuais na hora de subir.

Adoro o bonde deserto das madrugadas,

que abre um clarão nas rampas e, rangendo

nas curvas, rasga o sono,

impondo o mandamento de viver,

até mesmo no túnel da noite.

Suave bonde burocrático, atrasado bonde sob a chuva

que molha os bancos sob cortinas emperradas,

bonde amarrado à vida de 50

mil passageiros, minha gôndola,

meu diário bergantim, meu aeroplano,

minha casa particular aberta ao povo,

eu te saúdo, te agradeço; e em pé no estribo,

agarrado ao balaústre,

de modesto que és, faço-te ilustre.