Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Suplementos, Vitaminas e Antioxidantes
é certamente o que apresenta resultados mais conflitantes e de difícil
interpretação. Enquanto alguns estudos apontam melhora de parâmetros
seminais (notadamente a motilidade) entre indivíduos que consomem doses
altas de cafeína (acima de seis xícaras por dia), outros não foram capazes de
evidenciar nenhuma interferência. Além do uso de cafeína em um contexto
de consumo, há ainda linhas que pesquisam o efeito da cafeína in vitro,
como ferramenta adjuvante à performance laboratorial de espermatozoides
que serão usados em tratamentos assistidos. No entanto, os trabalhos vêm
apresentando resultados inconsistentes entre si, ora evidenciando melhora
de parâmetros funcionais (como a penetração no muco cervical ou até
mesmo taxas de gravidez em inseminações), ora mostrando piora de alguns
desfechos em FIV, como taxas de fertilização e desenvolvimento
embrionário. Ainda no âmbito laboratorial, o emprego de cafeína chegou a
mostrar efeito pró-oxidante, sugerindo cautela no emprego dessa substância
durante micromanipulação de gametas ou embriões.
A inconstância de dados clínicos e a falta de estudos prospectivos não
permite que a cafeína faça parte do arsenal laboratorial para suplementação
in vitro de espermatozoides. No entanto, com relação ao uso clínico, o
consumo moderado (até cinco xícaras ao dia) de cafeína parece seguro à
saúde reprodutiva masculina, sem que existam evidências suficientes para
recomendação favorável ou contrária à sua indicação como adjuvante no
quadro fértil masculino.
Suplementos, Vitaminas e Antioxidantes
O uso de suplementos nutricionais, compostos polivitamínicos ou
substâncias antioxidantes é assunto controverso, e que não conta com
recomendação formal definitiva por nenhum órgão ou associação médica
reprodutiva até o presente momento. Algumas substâncias vêm sendo
estudadas em trials prospectivos e randomizados, principalmente aquelas
com finalidade de controle de estresse oxidativo seminal. Apesar de
existirem algumas metanálises disponíveis sobre o assunto, os estudos que
as compõem não permitem conclusões definitivas, de forma que o emprego
destas substâncias como modalidade de alteração de estilo de vida deve ser
encarado com parcimônia. O principal argumento contrário ao uso de suplementos e antioxidantes são os potenciais danos, não só à qualidade
seminal, mas à funcionalidade do gameta masculino, bem como aos
desfechos embrionários e clínicos, incluindo taxas de gestação e de
abortamento. No entanto, até o presente momento, a literatura não conta
com estudos que tenham sido capazes de apontar maior risco em qualquer
esfera, ao passo que diversos trabalhos, ainda que com baixo nível de
evidência, vêm mostrando incrementos na qualidade seminal, além de
impacto positivo nos resultados de gestação in vivo e in vitro.
Dentre as substâncias cuja suplementação ou emprego mostrou impacto
positivo (clínico ou laboratorial) na fertilidade masculina em estudos
prospectivos e randomizados, cabe destacar as seguintes:
• Coenzima Q10: antioxidante envolvido no transporte de elétrons da
cadeia respiratória mitocondrial. Melhorias em diversos parâmetros
seminais, como concentração, morfologia e motilidade, com evidências
de incremento de função espermatogênica, tendo em vista a redução dos
níveis de gonadotrofinas em casos de hipogonadismo
hipergonadotrófico.
• Glutationa: componente intracelular presente em todas as estruturas
somáticas, sua administração em doses de 600 mg em dias alternados
mostrou melhora na motilidade e morfologia dos espermatozoides. Não
há evidências substanciais com relação aos desfechos clínicos mais
relevantes, no entanto.
• L-carnitina: composto necessário no metabolismo de ácidos graxos, além
de função oxidante. Suplementação com altas doses (2 g ao dia) se
relaciona com melhoria do padrão de movimentação dos
espermatozoides em estudos controlados, além de apresentar impacto
positivo em desfechos clínicos com taxas de gravidez em estudos
menores.
• Ômega 3: são ácidos graxos essenciais à fisiologia humana. Apresentam
correlação positiva com enzimas não habitualmente dosadas no plasma
seminal, como a superóxido dismutase, reconhecida como um dos
principais marcadores de atividade antioxidante. Os ácidos Ômega 3
participam ainda dos mecanismos que garantem a fluidez da membrana
lipoproteica do espermatozoide. Suplementação em indivíduos
portadores de alterações seminais confirmadas contribuiu, em estudos
clínicos, para a melhoria dos principais parâmetros do espermograma
(concentração, motilidade e morfologia).
• Zinco: micronutriente não só com atividade antioxidante, mas também
atuando como cofator de metaloenzimas envolvidas na transcrição
gênica e síntese proteica, cruciais na espermatogênese. Em associação a
folato, o zinco apresentou incremento nas contagens espermáticas,
figurando em diversos estudos listados em metanálises como uma das
principais substâncias no cenário da terapia antioxidante.
Referências
Klonoff-Cohen H, Lam-Kruglick P, Gonzalez C. Effects of maternal and paternal alcohol
consumption on the success rates of in vitro fertilization and gamete intrafallopian transfer. Fertil
Steril. 2003;79:330–339.
Michalakis K, Mintziori G, Kaprara A, Taelatzis BC, Goulis DG. The complex interaction between
obesity, metabolic syndrome and reproductive axis: a narrative review. Metabolism. 2013;62:457–
478.
Pasqualotto FF, Umezu FM, Salvador M, Borges E, Sobreiro BP, et al. Effect of cigarette smoking
on antioxidant levels and presence of leukocytospermia in infertile men: a prospective study.
Fertil Steril. 2008;90:278–283.
Sermondade N, Faure C, Fezeu L, Shayeb AG, Bonde JP, et al. BMI in relation to sperm count: an
updated systematic review and collaborative meta-analysis. Hum Reprod Update. 2013;19:221–
231.
Sermondade N, Massin N, Boitrelle F, Pfeffer J, Eustache F, et al. Sperm parameters and male
fertility after bariatric surgery: three case series. Reprod Biomed Online. 2012;24:206–210.
Showell MG, Mackenzie-Proctor R, Brown J, Yazdani A, Stankiewicz MT, Hart RJ. Antioxidants for
male subfertility. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2014;12:CD007411. doi:
10.1002/14651858.CD007411.pub3.
Stuppia L, Franzago M, Ballerini P, Gatta V, Antonucci I. Epigenetics and male reproduction: the
consequences of paternal lifestyle on fertility, embryo development, and children lifetime health.
Clin Epigenetics. 2015;11(7):120.
Yao DF, Mills JN. Male infertility: lifestyle factors and holistic, complementary, and alternative
therapies. Asian J Androl. 2016;18:410–418.
OceanofPDF.com