Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Infecções Bacterianas
Essas infecções podem disparar processos inflamatórios no TGM,
levando à deteriorização da espermatogênese e obstrução do trato seminal
que podem piorar as características do sêmen. Dessa maneira, torna-se de
extrema importância o papel dos principais patógenos no sêmen, sua
epidemiologia, prevenção, patogenia, diagnóstico, manejo clínico e
impactos nas técnicas de fertilização.
Infecções Bacterianas
Diferentes espécies bacterianas podem estar presentes no trato urinário e
reprodutor de homens férteis e inférteis. As bactérias patológicas presentes
no sêmen podem afetar diretamente a qualidade do esperma, reduzindo a
motilidade, induzindo apoptose ou necrose e alterando a morfologia do
esperma.
As principais doenças sexualmente transmissíveis de etilogia bacteriana
que afetam o sêmen são:
1. Chlamydia trachomatis;
2. Treponema pallidum;
3. Neisseria gonorrhoeae;
4. Ureaplasma;
5. Micoplasma.
Chlamydia trachomatis
Chlamydia trachomatis (CT) é a causa mais prevalente de doenças
sexualmente transmissíveis em todo o mundo, com cerca de 100 milhões de
novos casos diagnosticados anualmente, ainda que se acredite que esse
número seja subestimado. Embora a prevalência de infecção por clamídia
seja semelhante em homens e mulheres, as estratégias atuais de pesquisa e
rastreamento ainda estão focadas principalmente nas mulheres, o que faz
com que a relevância desse patógeno nas infecções do TGM seja esquecida.
Em termos de sintomas clínicos, apenas metade desses homens
apresentará sintomas clínicos, e uma porcentagem ainda menor receberá
tratamento. Dessa forma, a infecção por clamídia se destaca por ser crônica,
subclínica, subdiagnosticada e subtratada. Colabora para essas
características também o fato de que a infecção adquirida por clamídia é tipo-específica e gera imunidade parcialmente protetora. A reinfecção é
bastante comum. Nos homens, a clamídia é responsável por uretrite,
epididimite, epididimorquite e é cada vez mais aceita como agente causador
da prostatite.
O efeito da infecção na fertilidade masculina pode variar entre nenhum
efeito até a diminuição da qualidade do sêmen, prejuízo na capacidade de
fertilização do esperma e alteração da integridade do DNA. A epididimite
causada por clamídia pode afetar a fertilidade por meio de inflamação e
obstrução; as infecções uretrais ascendentes nos locais de espermatogênese
podem permitir que a bactéria interaja com o esperma e prejudique sua
função; e a prostatite crônica tem sido associada a morfologia alterada dos
espermatozoides e concentração reduzida, além de menor indutibilidade da
reação acrossômica.
Alguns estudos mostraram que a clamídia pode afetar a função
espermática, redução da concentração, qualidade, velocidade, morfologia,
motilidade, viabilidade, alteração do pH do sêmen e redução do volume
ejaculado. Não obstante, a infecção prévia por clamídia parece estar
associada ao desenvolvimento de anticorpos antiesperma devido à resposta
autoimune, afetando também a fertilidade.
O exame de primeiro jato de urina, da secreção uretral, do material
obtido por esfregaço na uretra e o exame para detectar os anticorpos
anticlamídia (IgM) são as principais ferramentas diagnósticas. Exames mais
modernos com técnicas de biologia molecular para detecção de DNA em
tempo real na urina ou no sêmen apresentam maior acurácia do que as
técnicas referidas e devem ser utilizados como padrão-ouro no
rastreamento.
A principal forma de prevenção na transmissão da clamídia é o uso de
preservativos. Uma vez instalada a infecção, o tratamento deve ser
realizado com doxiciclina ou azitromicina. Nas gestantes infectadas, a
opção de tratamento é azitromicina (categoria B) ou amoxicilina (categoria
B), com preferência para o primeiro antimicrobiano.
Treponema pallidum
Embora a relação entre sífilis e infertilidade não esteja claramente
estabelecida, suas complicações são conhecidas por afetar a fertilidade em casos individuais.
Na presença de lesões ativas, primárias ou secundárias, pode-se realizar a
microscopia em campo escuro. Os testes treponêmicos como VDRL e RPR
são extremamente úteis e práticos para realizar rastreamento e monitorar a
resposta ao tratamento clínico. O teste treponêmico é útil para verificar a
positividade do teste não treponêmico. O tratamento é com penicilina
benzatina. No caso da sífilis terciária acometendo o sistema nervoso central,
o tratamento recomendado é penicilina cristalina.
Neisseria gonorrhoeae
Nos homens, a infecção gonocócica é tipicamente caracterizada por uma
resposta inflamatória localizada sintomática da uretra, a uretrite. Uma
proporção da população apresenta uretrite gonocócica assintomática,
tipicamente observada em 1-3% dos casos. Acredita-se que a uretrite possa
estar presente de maneira assintomática entre 30% e 40% dos casos.
Complicações da infecção não tratada podem incluir estenose uretral,
abscessos do trato urogenital, prostatite e epididimorquite. A gonorreia
pode levar a sequelas graves, incluindo a diminuição da fertilidade devido à
obstrução, ao desenvolvimento de estenoses uretrais e/ou inflamação, além
de comprometimento da função testicular. Apesar da prevalência, a
gonorreia é um dos micro-organismos causadores de DST mais mal-
estudados com relação à infertilidade masculina. Em um estudo recente, o
DNA de N. gonorrhoeae foi detectado em sêmen de 6,5% de homens
inférteis, comparados com 0% em homens férteis.
O diagnóstico pode ser feito pela coloração de Gram ou pelos métodos de
cultivo. Mais recentemente, técnicas de biologia molecular com detecção do
DNA em urina de primeiro jato, sêmen e/ou em swab uretral têm
sensibilidade e especificidade superiores às técnicas de cultivo. O
tratamento pode ser feito com azitromicina dose única ou associação de
ceftriaxone a azitromicina em dose única, com controle de cura com testes
de biologia molecular 1 semana após o tratamento. As quinolonas e as
cefalosporinas devem ser evitadas pelo aumento da resistência
mundialmente.