Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Tratamento do Hipogonadismo
retroalimentação negativa com a hipófise, observamos níveis elevados de
LH e FSH. Esse é o tipo de hipogonadismo mais frequente, e o que tem o
pior prognóstico com relação à fertilidade.
Já as disfunções hipofisárias ou hipotalâmicas, que comprometam a
geração de LH, FSH ou GnRH, levam ao hipogonadismo secundário, ou
hipogonadotrófico. Nesse caso, o testículo é sadio, porém a falta de
estímulo hipofisário leva à redução da produção de testosterona e redução
de produção de espermatozoides. O hipogonadismo secundário costuma ter
resposta muito melhor ao tratamento de fertilidade, uma vez que o testículo
costuma responder bem ao estímulo medicamentoso.
Tratamento do Hipogonadismo
O tratamento do hipogonadismo deve ser totalmente diferente para o
homem que deseja ou não a fertilidade. Quando a fertilidade não é desejada,
o tratamento vai se basear apenas na normalização dos níveis séricos de
testosterona, visando à melhora de toda a sintomatologia clínica
apresentada.
Recomendamos que, quando a fertilidade for ainda desejada, a
terapia com testosterona exógena seja proibitiva, uma vez que bloqueia
o eixo HHT, com isso bloqueando o funcionamento das células de
Leydig e agravando ainda mais a infertilidade.
Tratamento do Hipogonadismo no Paciente
que não Deseja Fertilidade
Nos homens hipogonádicos com desejo apenas de melhora de
sintomatologia clínica, porém sem necessidade de preservação de sua
fertilidade, a terapia androgênica clássica deve ser iniciada. Como o foco
deste capítulo é o tratamento da infertilidade causada pelo
hipogonadismo, não nos alongaremos com detalhes sobre a reposição
androgênica no sexo masculino.
Tratamento da Infertilidade no Homem com
Hipogonadismo
Hipogonadismo hipogonadotrófico
O paciente com infertilidade por hipogonadismo hipogonadotrófico
costuma ter bom prognóstico quando tratado adequadamente.
A hiperprolactinemia é uma causa frequente de hipogonadismo
hipogonadotrófico, devido à inibição do eixo reprodutivo pela prolactina.
Entre as causas mais frequentes estão os prolactinomas (micro se menores
que 1 cm e macro se maiores de 1 cm), farmacológicas, e funcionais (p. ex.,
hipotireoidismo). O tratamento adequado é tratar a causa de base, isto é,
reduzir os níveis de prolactina. Nos prolactinomas (micro ou macro), o
tratamento inicial se dá com agonistas dopaminérgicos, que reduzem os
níveis de prolactina, e consequentemente levam ao restabelecimento do
eixo HHT (a resposta terapêutica depende de vários fatores, e
procedimentos cirúrgicos não estão descartados; uma revisão compreensiva
sobre o tratamento de prolactinomas está além dos objetivos deste capítulo).
A cabergolina é atualmente a droga de primeira escolha, por ter melhor
índice de resposta, menos efeitos colaterais, melhor aceitação e melhor
posologia. Geralmente, o uso de 1 comprimido de 0,5 mg de cabergolina
por semana costuma ser o suficiente para a normalização da prolactina na
maioria dos casos. Raramente, doses maiores como até 3,5 mg/semana
podem ser necessárias para a normalização dos níveis séricos da prolactina
e redução do volume do prolactinoma. Os efeitos colaterais mais comuns
dos agonistas dopaminérgicos são náuseas, vômitos, tontura, hipotensão
postural, síncope, cefaleia e congestão nasal. Nos casos de resistência aos
agonistas dopaminérgicos (que podem acontecer em 10% dos casos de
prolactinomas), de intolerância aos medicamentos, ou de sintomas
compressivos por macroprolactinomas que não diminuíram de tamanho
após o início do tratamento medicamentoso, o tratamento cirúrgico do
prolactinoma estará indicado. Existem situações em que o eixo HHT pode
não se restabelecer completamente após hiperprolactinemia crônica. Nesse
caso, tratamentos adjuvantes estão sendo estudados na literatura, mas de
maneira geral, serão semelhantes ao tratamento do hipogonadismo
hipogonadotrófico idiopático ou genético, que será discutido a seguir.
Se o hipogonadismo for causado por alguma doença tratável ou por
algum fator desencadeante que seja possivelmente retirado (como abuso de
álcool, drogas como maconha, opioides, corticoides, dentre outros), deve-se
tratar a doença de base e retirar o fator agressor, para que haja a
reversibilidade do quadro.
Nos casos de hipogonadismo hipogonadotrófico de causa idiopática,
genética (como na síndrome de Kallmann), por lesões estruturais de região
hipotálamo-hipofisária (por tumores, cirurgias, irradiação, doenças
infecciosas ou infiltrativas etc.) ou por bloqueio do eixo HHT por uso
prévio de esteroides androgênicos anabolizantes, um tratamento específico
para a infertilidade deve ser iniciado.
Atualmente, um dos tratamentos de primeira linha preconizados
para essa situação é o estímulo testicular com gonadotrofina coriônica
humana (hCG) produzida por engenharia genética.
O hCG é uma molécula muito parecida com o LH. Ambos compartilham
da mesma subunidade alfa, e se diferenciam por pequenas mudanças entre
suas subunidades beta. O hCG é capaz de se ligar e estimular os receptores
de LH das células de Leydig, funcionando como um análogo de LH. O uso
de hCG é comprovadamente eficaz na maioria dos casos em elevar a
produção intratesticular de testosterona no paciente que não tem disfunção
primária nas suas células de Leydig. E, muitas vezes, é capaz de
restabelecer a espermatogênese sem necessidade de outras medicações
adicionais.
Diversos protocolos têm sido realizados nos serviços que tratam de
infertilidade masculina, visando encontrar qual a melhor dosagem e
posologia do hCG para essa finalidade.
Revisando a literatura, encontramos protocolos com injeções subcutâneas
ou intramusculares de hCG, desde doses de 500 UI até 3.000 UI de hCG, de
duas vezes por semana até a aplicação em dias alternados.
Recomendamos que se inicie com doses menores como 1.000 UI a
cada dois dias, aumentando a dose em 50% a cada 1-2 meses, caso não
haja normalização dos níveis séricos de testosterona com a dosagem
utilizada. O uso do hCG pode trazer aumento do risco de eventos
tromboembólicos, além de ginecomastia, acne, dor testicular, retenção
hídrica, cefaleia, depressão, irritação e reações cutâneas nos locais de
aplicação (eritema, dor e reações alérgicas).
Caso o paciente permaneça em azoospermia e infertilidade mesmo após 6
meses de tratamento com hCG isolado:
Recomendamos que se inicie a estimulação agora combinada, tanto
das células de Leydig, quanto das células de Sertoli. Estas podem ser
estimuladas pela injeção subcutânea de FSH recombinante humano,
também produzido por engenharia genética. O FSH recombinante
demonstrou bons resultados quando aplicado em doses médias de 75 a
150 UI três vezes por semana. Apesar de a maioria dos casos de
hipogonadismo hipogonadotrófico obter resultados satisfatórios com o uso
de FSH recombinante associado ao hCG dentro dos primeiros 4 meses de
tratamento, pode ser necessário um tratamento longo, de até 18 meses, para
se alcançar a fertilidade. Nesses casos, pode-se aumentar a dose do FSH
recombinante para 225 UI três vezes por semana caso o paciente mantenha-
se azoospérmico mesmo após 6 meses de tratamento, ou para 300 UI 3
vezes por semana, caso a azoospermia permaneça mesmo após 1 ano de
tratamento. Trata-se de medicação geralmente muito segura e eficaz, mas
que ocasionalmente pode cursar com efeitos colaterais como cefaleia, acne,
ginecomastia, varicocele, ganho ponderal, sintomas flu-like, reações
cutâneas no local de aplicação e discreto aumento do risco de eventos
tromboembólicos.
Um dado interessante que os estudos têm mostrado é que homens com
hipogonadismo hipogonadotrófico não precisam atingir um espermograma
com contagem normal de espermatozoides para conseguirem atingir a
fertilidade. Muitos estudos mostraram pacientes que atingiram fertilidade
com contagens muito baixas, como apenas 1 a 1,5 milhão de
espermatozoides por mililitro. Cerca de 90% dos pacientes com
hipogonadismo hipogonadotrófico conseguem alcançar pelo menos 1
milhão de espermatozoides/mL no espermograma após 1 ano de tratamento
com hCG e FSH recombinante, quando se excluem pacientes com
antecedente de criptorquidia ou com qualquer outro fator de risco para lesão
testicular primária prévia. Caso o paciente não obtenha fertilidade mesmo
depois de 20 meses em tratamento combinado com hCG associado ao LH,
ou após 8 meses já tendo atingido uma contagem de pelo menos 5 milhões
de espermatozoides/mL, no espermograma, deve-se indicar o uso de
técnicas de reprodução assistida, conforme detalhado mais adiante neste
capítulo.
Uma outra possibilidade terapêutica para o tratamento da infertilidade
causada por hipogonadismo hipogonadotrófico de causa hipotalâmica é o
tratamento com a infusão subcutânea pulsátil de GnRH, feita por meio de
uma bomba de infusão contínua, de alto custo, geralmente disponível
apenas em centros de referência e hospitais terciários. A bomba fica pré-
programada para infundir doses pulsáteis de 100 a 400 ng/kg de GnRH a
cada 90 a 120 minutos no tecido subcutâneo da parede abdominal do
paciente. Devido a alto custo, inconveniência, pouca disponibilidade e falta
de resposta nos casos em que o hipogonadismo é causado por doença
hipofisária, esse tipo de tratamento é atualmente pouco realizado.
O citrato de clomifeno é um modulador seletivo do receptor estrogênico
(SERM), que se liga aos receptores de estrogênio sem estimulá-los,
funcionando como um antagonista desses receptores. Dessa forma, inibe a
retroalimentação negativa que o estrogênio exerce sobre as células
hipotalâmicas e hipofisárias e, com isso, ativa uma maior produção de
GnRH e de gonadotrofinas endogenamente.
Recomendamos doses de 25 mg diários ou 50 mg em dias alternados,
as quais costumam ser suficientes para estimular uma maior produção
de testosterona intratesticular e, consequentemente, de
espermatozoides, em pacientes que ainda possuem uma reserva
hipotálamo-hipofisária parcial. Seu uso pode ser isolado ou associado a
outras técnicas como o hCG.
O estímulo gonadotrófico com clomifeno é especialmente útil nos casos
de hipogonadismo hipogonadotrófico funcional, sem lesão anatômica ou
estrutural hipotálamo-hipofisária, como acontece, por exemplo, nos casos
de pacientes com hipogonadismo por obesidade e síndrome metabólica, que
costumam responder muito bem a esse tipo de tratamento, por possuírem
níveis de estradiol elevados, que suprimem fortemente o eixo HHT, ou
mesmo nos casos de hiperprolactinemia em que o eixo não se restabelece
adequadamente após redução dos níveis de prolactina. No entanto, ainda
faltam estudos que garantam a segurança do seu uso a longo prazo, de
forma que sua utilização com essa finalidade ainda é considerada off-label.
O uso de inibidores de aromatase, como o anastrozol, em doses de 0,25 a
1 mg/dia, também pode ser útil para o tratamento do hipogonadismo
hipogonadotrófico causado pelo hiperestrogenismo. Efeitos indesejados, porém, como a perda de massa óssea fazem com que esse tipo de
tratamento não seja seguro para ser utilizado a longo prazo.
Para pacientes com hipogonadismo hipogonadotrófico que desejam
preservar a fertilidade futura, mas que não estejam procurando tratamento
para fertilidade no momento, uma boa opção de tratamento seria a
associação da terapia androgênica clássica a doses baixas de hCG
subcutânea ou intramuscular. Hsieh et al. demonstraram preservação da
espermatogênese em homens hipogonádicos que recebiam 500 UI de hCG
subcutâneo em dias alternados, associados à terapia clássica com
testosterona tópica ou intramuscular, quando se comparava o espermograma
basal do paciente com novo espermograma colhido após 1 ano de
tratamento. Outros estudos mostraram que doses menores como 250 UI a
cada 2 dias já conseguiam manter os níveis de testosterona intratesticular
dentro da faixa da normalidade enquanto os pacientes eram submetidos à
terapia androgênica clássica.
Hipogonadismo hipergonadotrófico
Na infertilidade por disfunção primária dos testículos, infelizmente as
possibilidades terapêuticas e as respostas aos tratamentos disponíveis hoje
em dia são muito menores, com prognóstico de fertilidade muito mais
sombrio.
Como a espermatogênese nesses casos é muito comprometida e as
células de Leydig e de Sertoli respondem muito mal a qualquer tipo de
estímulo, o tratamento indicado para esses casos é a tentativa de extração de
espermatozoides para serem utilizados em técnicas de reprodução assistida.
Dentre as técnicas disponíveis, pode-se inicialmente tentar a aspiração
percutânea dos espermatozoides do epidídimo (PESA) e, caso não haja
captação de quantidade suficiente de espermatozoides, procede-se à
aspiração percutânea de espermatozoides do testículo (TESA), conforme
ilustrado na Figura 6.3. Ambos são procedimentos simples, realizados sob
anestesia local, com a introdução de agulha visando à aspiração de fluido
que será analisado microscopicamente, em busca de espermatozoides vivos,
móveis, morfologicamente saudáveis e capazes de fertilizar um óvulo
doado. Alguns cirurgiões preferem fazer essa extração por meio de técnicas
abertas em vez da técnica percutânea. Os espermatozoides captados podem ser utilizados de imediato, ou podem ser criopreservados para utilização
posterior.
FIGURA 6.3 PESA e TESA.
Caso os espermatozoides captados tenham boa mobilidade e vitalidade e
a parceira tenha as tubas uterinas pérvias à histerossalpingografia, pode-se
tentar injetá-los dentro do útero da paciente com o objetivo de fertilização
de um óvulo dentro do corpo da paciente (inseminação artificial), que é uma
técnica mais simples e mais barata de reprodução assistida. Caso contrário,
pode-se incubar os espermatozoides com o óvulo doado dentro de
recipientes apropriados com o meio de cultura ideal, para que ocorra a
fertilização fora do corpo da paciente, in vitro. Na maioria dos casos,
entretanto, principalmente quando os espermatozoides captados possuem
pouca motilidade, prefere-se fazer a injeção intracitoplasmática do
espermatozoide (ICSI; Figura 6.4) dentro do óvulo doado pela parceira.
Caso haja sucesso na fecundação (o que ocorre em 45% a 75% dos casos de
ICSI), os embriões são colocados via transvaginal dentro do útero da parceira. A maioria dos centros de reprodução assistida registram taxa de
gravidez entre 30% e 40% por ciclo nessas situações, com uma taxa de
nascimentos vivos de 25% a 30% por ciclo.
FIGURA 6.4 ICSI.
Nos casos de azoospermia nos quais não se consegue obter
espermatozoides nem com essas técnicas de extração, a chance de
fertilidade para o paciente se torna extremamente remota, e deve-se
conversar com ele sobre soluções alternativas como o uso de esperma
doado ou mesmo sobre a adoção de uma criança.