Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
9: Disfunções Sexuais no Homem Infértil: Investigação e Condutas
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Disfunções Sexuais no Homem
Infértil: Investigação e Condutas
Conrado Alvarenga
Renato Fidelis
Thais Della Tonia
José Cury
Introdução
O objetivo deste capítulo é auxiliar o urologista que acompanha o casal
infértil no manejo dos homens com queixa sexual, no sentido de identificar
os aspectos importantes da história clínica e psicossexual desses pacientes,
determinar quais exames iniciais deverá solicitar, como interpretá-los, como
entender as angústias e os medos desses pacientes, quando encaminhá-los
para seguimento psicológico em paralelo e como, finalmente, conduzir o
tratamento da disfunção sexual simultaneamente ao tratamento da
infertilidade.
Alterações Sexuais com o Surgimento da
Infertilidade no Homem
Disfunção Erétil A disfunção erétil (DE) é a incapacidade persistente ou recorrente do
homem obter e/ou manter a ereção peniana suficiente para a atividade
sexual. Muitos pacientes se queixarão da incapacidade de obter qualquer
ereção, e outros, em sua maioria, por não conseguirem manter a ereção
durante o ato sexual, relatarão que conseguem obter inicialmente a ereção,
mas que frequentemente perdem a turgescência no intercurso sexual e
precisam de manobras outras para manterem a penetração. Tal queixa é
muito comum no dia a dia urológico, visto que os casos em que o homem
não consegue nem ao menos desencadear alguma ereção costumam ser
mais graves e menos frequentes na prática clínica.
Em 2014, grande estudo brasileiro, encabeçado pela professora Carmita
Abdo, revelou números alarmantes a respeito da elevada prevalência de DE
em homens sexualmente ativos. Carmita demonstrou que quase 54% dos
homens possuem algum grau de DE, sendo 20,8% em grau mínimo, ou seja,
não estão satisfeitos plenamente com sua função erétil, 26,3% em grau
moderado e 6,4% em grau completo (não conseguem nem ao menos
desencadear a ereção).
Na prática clínica, nos depararemos, por exemplo, com grau mínimo em
pacientes mais jovens e associado a DE psicogênica; grau moderado em
pacientes diabéticos ou tabagistas; e grau completo após cirurgia radical
para o câncer de próstata. Nos casos de infertilidade conjugal, a prevalência
de disfunção erétil parece ser de predominância psicogênica, por se tratar,
na maioria dos casos, de homens jovens e sem comorbidades relevantes.
Vale destacar a que a investigação e o manejo em todos os graus
seguem o mesmo protocolo, com o intuito de se uniformizar a conduta e
a busca pelo diagnóstico e tratamento.
Fisiologia
Entender perfeitamente a fisiologia da ereção é fundamental para que se
possa, ao entrevistar, entender a gênese e o contexto do problema sexual de
ereção relatado pelos pacientes. A estimulação sexual masculina é
fundamental para a indução do ciclo sexual masculino. O ciclo sexual se
inicia no mais importante órgão sexual masculino: o cérebro. Isso porque os
sentidos da visão, olfato, audição, paladar e sensação tátil formam as cinco fontes que, ativadas individualmente ou em conjunto, permitirão que a
miríade de fenômenos fisiológicos da ereção se iniciem.
Muitos pacientes com disfunção erétil desconhecem os mecanismos para
obterem a ereção por estarem carentes de estimulação ou por estarem
inibidos sexualmente. O ciclo da ereção se dará em seis fases, descritas a
seguir:
• Estado de flacidez – é o pênis contraído, com predominância do
simpático, musculos lisos contraídos, sem enchimento dos corpos
cavernosos.
• Enchimento – fase muito importante. Em resposta ao estímulo dos
sentidos mencionados e com resposta parassimpática, há dilatação das
artérias com relaxamento da musculatura lisa e enchimento dos
sinusoides.
• Ereção plena – expansão do pênis progressiva com afluxo sanguíneo
abundante, com compressão dos plexos venosos e represamento
sanguíneo – pênis arterial.
• Ereção rígida – a pressão intracavernosa supera a pressão sistólica
sanguínea, superando 190/200 mmHg.
• Ejaculação – contração rítmica dos músculos isquiocavernoso e
bulbocavernoso, com propulsão do sêmen através da luz uretral.
• Detumescência – retorno à contração da musculatura lisa, reabertura dos
canais venosos e flacidez – pênis venoso.
Sempre será muito importante questionar o paciente de modo que
informe ao médico em qual das fases a queixa está instalada, se o
problema está em fase mais inicial, no decorrer do intercurso sexual ou
se a queixa está na fase mais final, ejaculatória. Com isso, fica claro
também que muitos pacientes terão queixas associadas de má qualidade de
ereção e distúrbios da ejaculação, levando-os a se confundirem, pois
pensam que apresentam problemas de ereção, mas na realidade são
portadores apenas de ejaculação precoce.
Disfunção Erétil Orgânica versus
Psicogênica: entendendo as diferenças Classicamente, dividimos a disfunção erétil em orgânica e psicogênica, mas
na prática percebemos que mesmo a DE de origem orgânica acaba por
afetar psiquicamente o homem. Todo homem com DE está perturbado em
graus diversos, com medo, inseguro, com baixa autoestima e fragilizado.
Portanto, tal classificação vale apenas para identificarmos aqueles homens
sem alteração orgânica de base, comorbidade, alteração nos exames de
investigação e portanto, com DE puramente psicogênica. O restante, que se
encaixará nas disfunções orgânicas, muitas vezes apresentarão disfunção
mista. Vale guardar que a disfunção mista (orgânica + psicogênica) é a mais
comum.
FIGURA 9.1 Causas da disfunção erétil. A disfunção pode ter causas orgânicas ou psicogênicas, podendo também ser uma combinação delas.
Forma-se um círculo vicioso: o homem passa a transar mal, aumenta
seu nível de tensão para o sexo, passa a ter baixa da segurança e da
autoestima e suas relações sexuais tendem a piorar.
Abordaremos inicialmente a DE de origem psicogênica, o papel
fundamental da psicoterapia e o manejo de tal situação clínica, para depois
nos aprofundarmos no entendimento e na conduta da DE de origem
orgânica. Vale a pena lembrar também que a relação com o paciente deverá
atingir níveis profundos de confiança e segurança, de maneira a se buscar
uma abertura para discussão da intimidade, o que muitas vezes em relações
superficiais não é sequer atingido.
Etilogia psicogênica
É a mais comum nos homens inférteis. Problemas emocionais
relacionados com a dificuldade para engravidar, ansiedade e transas muito
programadas nas épocas ovulatórias e estresse estão diretamente
relacionados com a piora da qualidade sexual do homem infértil. Queixas
como ejaculação precoce, disfunção erétil e baixo desejo são muito
comuns entre homens que passam por desordens psicológicas comuns
durante a investigação e o tratamento da fertilidade. Geralmente, o
perfil do homem com DE psicogênica pura é de idade mais jovem, sem
comorbidades; sua história clínica corrobora a associação entre fases ruins
emocionais, com piora da performance sexual; e geralmente são mais
ansiosos ou deprimidos. Isso faz com que o manejo da infertilidade para
este grupo em especial de homens seja mais penoso, e, portanto, o risco de
afetar sua sexualidade maior é potencializado.
Cada casal reage de uma maneira quando se depara com esse tema
assim como a reação é diferente entre homens e mulheres, em função de
personalidade, cultura, história familiar e individual e da importância que
há nesse objetivo e projeto da vida. Existem as relações que se fortalecem.
Nestas, o casal não culpabiliza um ao outro pela dificuldade, apoiando-se
nas tomadas de decisões em todo o tratamento. Em contraponto, existem
relações que são diretamente afetadas pela infertilidade. Ambos passam por
uma trajetória de cinco fases distintas:
• Tristeza: marcada pelo desânimo associado à dificuldade em gerar um
filho;
• Mobilização: caracterizada pelo esforço do casal em procurar ajuda
médica, bem como se deparar com o diagnóstico;
• Imersão: definida pelo tratamento em si; um período exigente de exames
e dureza dos procedimentos médicos, o que, consequentemente, obriga
o casal a esperar o resultado, colocando sua vida muitas vezes em
suspenso em face do objetivo de conceber, com desfecho incerto;
• Resolução: marcada pelo fim dos procedimentos médicos, luto por um
filho e a posterior reorientação dos objetivos do casal;
• Legado: definido pelo que sucede ao tratamento, sejam melhorias no
relacionamento ou o desequilíbrio diante das perdas sofridas.
Os tratamentos, por si sós, revestem-se de características próprias que
refletem diretamente na vivência da sexualidade. Sendo assim, para alguns
casais, o ato sexual perde a espontaneidade, principalmente na fase de
período fértil da mulher. Há uma modificação no jogo erótico da sedução.
Acompanhado agora de tensão e ansiedade, o sexo passa a ser visto
somente para a procriação. Apesar de ser mais invasivo fisicamente à
mulher, e de ambos se queixarem da piora na relação sexual, sem sombra de
dúvida, esse equívoco é um peso maior para os homens (principalmente se
ele é o identificado). Elas não necessitam de qualquer fase da resposta
sexual (desejo, excitação, orgasmo e resolução), ao contrário do homem. É
comum a eles sentirem sua sexualidade invadida. Existe a necessidade de
masturbação para recolha de sêmen e pressão para engravidar (quando se
diz respeito a penetração e ejaculação centrada na gravidez). Para alguns,
isso interfere negativamente na identidade masculina, podendo originar
disfunções sexuais situacionais como: disfunção erétil, ejaculação rápida,
perda ou diminuição do desejo sexual.
O estresse em “ter obrigação de”, privando-o de sua espontaneidade,
talvez seja sua maior penalidade. A ideia de ter hora marcada para o sexo
porque “hoje o dia é fértil”, a obrigação e pressão em ter de ter/manter
ereção e também ejacular podem afetar a frequência da atividade sexual e
limitar as chances de conceber um filho. Múltiplos aspectos estão aí
envolvidos, acompanhados de emoções negativas baseadas em ansiedade,
estado depressivo, relacionamento interpessoal e conjugal. Para alguns, o
quadro pode se agravar, chegando à aversão sexual quando a tentativa ao
tratamento é recorrente. Eles têm de esconder a “mágoa de ontem” e buscar
contato físico hoje porque se veem obrigados a registrar a ocorrência da relação sexual para mostrar ao médico. Isso também pode levar a