Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Procedimentos para Captação de Espermatozoides
eram capazes de ejacular de forma anterógrada.
Além das alterações espermáticas, há ainda alterações do plasma seminal
características dos pacientes com LMT. Cerca de 27% dos pacientes
possuem coloração seminal marrom, que não melhora com ejaculações
frequentes, demonstrando não ser consequência da estase de sêmen.
Quando o plasma seminal de homens com LMT é misturado com
espermatozoides normais provenientes de homens saudáveis sem LMT, há
uma rápida diminuição da motilidade espermática. Além disso,
espermatozoides não expostos ao plasma seminal, ou seja, aspirado a partir
dos deferentes ou do epidídimo, apresentam motilidade significativamente
mais elevada do que os provenientes de ejaculado de homens com LMT.
Procedimentos para Captação de
Espermatozoides
Dentre os métodos para obter espermatozoides de paciente com LMT,
há aqueles que visam à captação com um auxílio à ejaculação,
enquanto outros acabam por contornar as vias ejaculatórias naturais e
partem para a captação cirúrgica. De uma maneira geral, métodos que
auxiliam na ejaculação devem ser preferidos, pois são menos invasivos e
produzem um maior número de espermatozoides totais móveis, o que
amplia as opções no momento de selecionar métodos de reprodução
assistida (RA).
Vibroestimulação Peniana (VP)
VP é recomendada como tratamento de primeira linha para
anejaculação em homens com LMT porque é segura, confiável e com
boa relação custo-benefício. É realizada colocando-se um vibrador no
dorso ou frênulo da glande e mantendo estimulação mecânica vibratória até
que a ejaculação ocorra. Uma grande variedade de dispositivos pode ser
utilizada para executar VP, contudo são mais eficazes aqueles que
proporcionam pelo menos 2,5 mm de amplitude. O aparelho com nome
comercial de FertiCare (Multicept, Albertslund, Dinamarca) é o único dispositivo aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para a
ejaculação de homens com LMT (Figura 8.1). VP é mais eficaz em homens
cujas vias nervosas da ejaculação estejam intactas, ou seja, com lesões mais
craniais. Pacientes com nível de lesão T10 ou superior mostram taxa de
sucesso de 86% com um ou dois vibradores em comparação com homens
com um nível de T11 inferior ou lesão, os quais conseguem ejacular em
aproximadamente 15% das tentativas. É ainda fundamental que o nervo
dorsal do pênis esteja intacto, o qual é o ramo sensorial do terminal do
nervo pudendo em segmentos sacral da medula espinal S2-S4.
FIGURA 8.1 Imagem ilustrativa do vibrador FertiCare, o qual é aprovado pela FDA para realização da vibroestimulação peniana.
Para executar VP, o paciente deve ser transferido de sua cadeira de rodas
para uma mesa de exame ou leito de hospital. O paciente deve estar em uma
posição segura, pois é possível que ele venha a apresentar um episódio de
espasticidade ou disreflexia autonômica (DA). Para evitar DA, em pacientes
cujo nível de lesão é equivalente ou cranial a T6, deve ser administrada
nifedipina ou outra medicação anti-hipertensiva adequada antes da
estimulação. A bexiga deve ser preparada em todos os casos, uma vez que
há possibilidade de ejaculação retrógrada. Deve-se esvaziar a bexiga com
uma sonda uretral ou cateter de Foley e infundir 25-50 mL de solução
própria para preservação de espermatozoide não mais do que 10 minutos
antes do início da VP. A maioria dos doentes que respondem à VP terão
pouca ou nenhuma ejaculação retrógrada, o que pode prescindir o passo de
preparação da bexiga em casos selecionados. A pressão arterial deve ser monitorizada antes, durante e depois da VP, e esta não deve ser realizada
em pacientes hipertensos no momento da monitorização.
Terminada a preparação, dá-se início à VP colocando-se um vibrador no
dorso ou freio da glande até que ocorra a ejaculação anterógrada. Se não
ocorrer ejaculação após 2 minutos de estimulação, é sugerido realizar uma
pausa de 1 a 2 minutos e, em seguida, reiniciar o ciclo. Esses passos são
repetidos até que sejam completados 10 minutos de estimulação. Durante os
períodos sem estímulo, a pele do pênis é inspecionada para avaliar presença
de edema ou abrasão, e o procedimento deve ser suspenso em caso de
alguma alteração.
A VP também deve ser interrompida se os sinais vitais estiverem
instáveis, a pedido do paciente ou se não houver ejaculação após 10
minutos. A presença de contrações abdominais em combinação com
contrações do músculo do bulbo esponjoso são indicadores de que houve
ejaculação. Se essas contrações ocorrerem, porém, sem a expulsão de
sêmen de forma anterógrada, deve-se colher o conteúdo da bexiga com
nova cateterização e centrifugar o efluente para avaliação cuidadosa do
sedimento. Comparação entres fluidos obtidos antes e após o procedimento
pode ajudar a indicar a presença de ejaculado e/ou plasma seminal na urina.
Indicações de plasma seminal incluem um volume pós-centrifugação
superior a 1 mL e aparecimento de leucócitos que são comumente
encontrados no plasma seminal de pacientes com LMT. Se não houver
espermatozoides e nem indicações de plasma seminal, o paciente pode
receber o diagnóstico de anejaculação. Se houver indicações de plasma
seminal, porém ausência de espermatozoides, o paciente provavelmente é
azoospérmico.
Eletroejaculação
Os pacientes que não respondem à VP devem ser encaminhados para
eletroejaculação (EEJ), que deve ser realizada por um médico treinado
nesse procedimento. Praticamente todos os homens com LMT vão ejacular
com EEJ, no entanto ejaculação retrógrada é mais comum com EEJ do que
com VP. Uma pequena minoria de homens (4-5%) vai exigir anestesia
durante EEJ, devido à sensibilidade pélvica. Caso anestesia seja necessária,
deve-se evitar o uso de agentes paralisantes, o que pode comprometer a
eficácia do procedimento. O aparelho (Figura 8.2) possui uma sonda que
deve ser inserida no reto e gera corrente elétrica, que, por sua vez, leva a
uma contração da musculatura pélvica e, consequentemente, à propulsão de
sêmen. EEJ também pode provocar DA, de forma que a pressão arterial
deve ser sempre monitorizada. Antes de se iniciar a EEJ, a bexiga deve ser
preparada de maneira semelhante à VP. O paciente é colocado na posição de
decúbito lateral, e a sonda é inserida através do reto e direcionada
anteriormente para a próstata e as vesículas seminais, como
esquematicamente demonstrado na Figura 8.3. É recomendado iniciar o
estímulo elétrico de maneira progressiva, com incrementos de 2-5 V. A cada
incremento, a tensão de pico deve ser mantida por 5 segundos, e depois
abruptamente desligada. Curiosamente, a ejaculação ocorre em EEJ quando
a corrente é desligada. Um estudo do comportamento esfincteriano durante
EEJ em homens com LMT mostrou que, quando a corrente é desligada, há
uma diferença de pressão entre os esfíncteres urinários internos e externos
que favorece o fluxo retrógrado de sêmen. Se não ocorrer a ejaculação
anterógrada, deve-se tentar obter o material da bexiga para análise.
Ejaculação retrógrada de algum grau geralmente ocorre com EEJ e,
ocasionalmente, pode ser a única fonte de ejaculado.
FIGURA 8.2 Aparelho padrão para realização de eletroejaculação.
FIGURA 8.3 Modelo esquemático de posicionamento do paciente e equipamentos durante a eletroejaculação.
Captação Cirúrgica de Espermatozoides
Em caso de falha com VP e EEJ, ou uma vez que os mesmos sejam
contraindicados, a captação cirúrgica de espermatozoides pode ser realizada
como último recurso. Inúmeras técnicas cirúrgicas para recuperação de
espermatozoides têm sido descritas como: aspiração testicular com agulha
fina (TESA); biópsia percutânea; biópsia aberta; extração de
espermatozoides testiculares com ou sem auxílio de microscópio
(TESE/microTESE). A aspiração microcirúrgica de espermatozoides do
epidídimo (MESA) e aspiração percutânea de espermatozoides do
epidídimo (PESA) são as técnicas ideais para azoospermia obstrutiva, uma
vez que teoricamente há maior concentração de espermatozoides maduros e
móveis. No entanto, não há comprovação científica de que qualquer uma
das técnicas tenha uma vantagem distinta sobre a outra na recuperação de
esperma nos pacientes com LMT. A captação cirúrgica de espermatozoides
é recomendada após falhas dos tratamentos que promovem a ejaculação,
porque os rendimentos de esperma são muito baixos com esses métodos, o
que, consequentemente, compromete o casal à fertilização in vitro (FIV) ou à injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), que são os