Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
7: Manejo Prático da Azoospermia – Obstrutiva e Não Obstrutiva
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Manejo Prático da Azoospermia –
Obstrutiva e Não Obstrutiva
Conrado Alvarenga
Introdução
Azoospermia é definida como ausência de espermatozoides em pelo menos
duas coletas seminais com exame de centrifugação, de acordo com o
manual da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2010. Essa definição é
muito importante, pois muitos pacientes com exame inicial sem
centrifugação revelando azoospermia, na verdade, serão enquadrados como
portadores de criptozoospermia, se, após a centrifugação, forem
encontrados espermatozoides.
Detectaremos azoospermia em 10% a 20% dos homens com infertilidade
e em até 1% da população geral. Além disso, é possível termos variações no
mesmo homem entre criptozoospermia e azoospermia. Alguns centros de
reprodução humana preconizam sempre a realização de uma útima análise
seminal antes da captação oocitária e eventual captação cirúrgica de
espermatozoides.
Como recomendação inicial para diagnóstico, é fundamental que a
confirmação da azoospermia ocorra após duas análises seminais, seguindo
rigorosamente o manual da OMS de 2010, e que o exame físico inicial
avalie a presença ou ausência dos ductos deferentes. Nessa etapa,
diferenciamos homens com deferentes não palpáveis de homens com ductos
dentro da normalidade:
• Nos homens com ductos deferentes não palpáveis, a confirmação de
agenesia deferencial e/ou vesículas seminais necessitará de:
• Ressonância nuclear magnética de pelve com contraste ou ultrassom
transretal para confirmar a hipoplasia ou agenesia das vesículas
seminais e/ou dos ductos deferentes.
• Teste de frutose no sêmen – esperam-se, nestes casos, níveis reduzidos
de frutose.
• Investigação genética da esposa para genes ligados à fibrose cística
(FC). A avaliação genética masculina pode ser dispensada, pois
podemos considerar o marido como portador de gene(s) mutado(s).
Tal conduta diminui consideralvemente os custos da investigação sem
impactar os resultados do tratamento.
• Nos homens com ductos deferentes palpáveis, após confirmação
diagnóstica de azoospermia, aprofundamento e detalhamento da história
clínica, exame físico, perfil hormonal completo, exames de imagem e
genéticos serão fundamentais para se tentar distinguir entre azoospermia
obstrutiva de não obstrutiva e para estimar as chances de reversão
clínica ou sucesso na captação cirúrgica de espermatozoides.
• Recomendação após confirmação diagnóstica: a investigação
subsequente deverá ser aprofundada e se iniciará com a história
clínica detalhada em busca de:
• Antecendente de caxumba, torção testicular, cirurgias testiculares,
criptorquidia tardiamente corrigida.
• Quimioterapia/radioterapia prévias.
• Uso de anabólicos e data do último contato com hormônios – é
frequente o uso recente de anabólicos.
• Uso de medicamentos gonadotóxicos – sugerimos sempre estudo
mais detalhado do risco de fertilidade antes do uso de medicações
potencialmente de risco. Exemplo: finasterida para alopécia
androgênica em homens com risco para infertilidade.
• Traumas testiculares prévios e histórico de criptorquidia.
Após análise da história clínica do paciente com azoospermia, deveremos
solicitar para todos os casos a tríade de exames:
• Ultrassonografia doppler da bolsa testicular – idealmente realizado em
posição ortostática e supina.
• Avaliar volume testicular, confirmar a presença de varicocele e
presença de tumores, microlitíase, cistos, dentre outras alterações.
Vale destacar que, em homens com infertilidade e/ou microlitíase, há
incidência aumentada de câncer testicular.
• Perfil hormonal completo com dosagem de testosterona total e livre,
prolactina, LH, FSH, estradiol, hemograma completo, TSH e T4 livre,
perfil hepático, glicemia de jejum.
• Descartar alterações endocrinológicas, doenças sistêmicas não
diagnosticadas, hipogonadismo (primário ou secundário),
prolactinomas, dentre outras.
• Exames genéticos: cariótipo banda G e pesquisa de microdeleção no
cromossomo Y.
• Descartar alterações cromossômicas e deleções no cromossomo Y.
Apenas os casos de microdeleção do tipo AZFa e AZFb são
candidatos a cirurgias para captação de espermatozoides. Pacientes
com microdeleção do tipo AZFc não se enquadram nesse caso.
Os pacientes com azoospermia não obstrutiva (ANO) apresentam
habitualmente testículos de volume diminuído e epidídimos vazios. Nesses
casos, os níveis de FSH muitas vezes virão elevados (FSH >7) e os níveis
de testosterona normais ou reduzidos.
Já os pacientes com azoospermia obstrutiva (AO) apresentam
habitualmente níveis normais de FSH, testículos de volume adequado e
epidídimos cheios.
Após os resultados da tríade de exames iniciais teremos dois grupos de
pacientes: grupo A e B.
A – Homens com testes genéticos alterados que irão para
aconselhamento genético, seguido de cirurgia para captação de
espermatozoides e ICSI, com análise posterior dos embriões.
B – Homens com testes genéticos normais deverão ser avaliados se são
portadores ou não de varicocele clínica; os portadores de varicocele deverão
ser abordados com varicocelectomia microcirúrgica e eventual biópsia
testicular prognóstica no mesmo ato.
Pacientes azoospérmicos tratados cirurgicamente da varicocele
apresentam 30% de chance de apresentarem espermatozoides no ejaculado,
em média 4 a 8 meses depois da cirurgia. Os casos com resultado:
hipoespermatogênese ou parada de maturação são os de melhor
prognóstico, e os casos de síndrome de Sertoli-cell-only de pior.
Os homens com exames genéticos normais e sem varicocele clínica serão
estratificados de acordo com os níveis de FSH em grupo C e D:
C – Pacientes com níveis de FSH inferiores a 7, com níveis de prolactina,
testosterona total e volume testicular normais serão candidatos à biópsia
testicular. O material obtido na biópsia testicular deverá ser colocado no
líquido fixador (Bouin’s – mais utilizado; Zenker’s, ou glutaraldeído) e
nunca em formol diretamente. Na biópsia, caso se encontrem
espermatozoides, o material pode ser congelado – o desenho a seguir ilustra
a biópsia testicular (Figura 7.1).
FIGURA 7.1 Ilustração de amostra de tecido testicular (amarelo) exposta para biópsia, com fios de reparo na túnica albugínea – TESE.
Por outro lado, quando com níveis de testosterona e LH baixos, deverão
ser abordados e tratados como portadores de hipogonadismo-
hipogonadotrófico, com tentativa de tratamento clínico por 3 a 6 meses e
última análise de espermatozoides no ejaculado.
D – Pacientes com níveis de FSH superiores a 7 e principalmente para os
casos com níveis de FSH superiores a 11 serão candidatos à cirurgia para
captação de espermatozoides no mesmo ato da ICSI.
Os pacientes com FSH, LH e testosterona baixos deverão ser
encaminhados sempre para investigação endocrinológica.
A Figura 7.2 ilustra a abordagem prática do homem com azoospermia.
FIGURA 7.2 Fluxograma prático para azoospermia.