Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Diferenciação de Células Germinativas a partir de Células Pluripotentes
gerar a prole do casal.
Um importante passo foi dado para que o uso do gameta masculino
doado não seja mais necessário no tratamento de casais com o homem
portador de azoospermia verdadeira. Após a descoberta de que podemos
reprogramar células maduras para torná-las pluripotentes — o que
rendeu em 2012 o Prêmio Nobel de Medicina a John Gurdon e Shinya
Yamanaka — novos caminhos estão sendo trilhados constantemente por
meio de pesquisas.
As perspectivas de novos tratamentos da infertilidade do homem são
extremamente prósperas, pois constituem um momento de transformação e
evolução da tecnologia de forma exponencial, principalmente no campo da
ciência.
Neste capítulo comentaremos o que há de concreto em estudos recentes e
com possibilidades, no futuro próximo, de chegar às mãos dos urologistas e
especialistas em medicina reprodutiva para o manejo da infertilidade
masculina.
Diferenciação de Células Germinativas a
partir de Células Pluripotentes
Em trabalhos publicados há mais de 50 anos, John Gurdon, no Reino
Unido, foi pioneiro na demonstração de que as células poderiam ser
reprogramadas, contrariando o pensamento de muitos cientistas na época,
que acreditavam que a especialização celular era um processo unidirecional
e que não poderia ser revertido. Gurdon derrubou esse dogma ao remover o
núcleo de um óvulo de rã, substituindo-o pelo núcleo da célula intestinal de
um girino. Notavelmente, apesar de o núcleo da célula intestinal já ter se
comprometido com a especialização, dentro do óvulo, dirigiu o
desenvolvimento de um girino normal.
A partir disso, os estudos com células-tronco embrionárias vêm se
desenvolvendo no decorrer dos anos. Evans e Kaufman, em 1981, relataram
que as células-tronco embrionárias são derivadas da massa celular interna
de blastocistos de mamíferos, apresentando a importante característica de crescer mantendo a pluripotência e a capacidade de se diferenciar em outra
célula, a partir das três camadas germinativas.
Com sua capacidade de diferenciação, a célula-tronco pode ser utilizada
para o tratamento de uma série de doenças, tais como doença de Parkinson,
lesões da medula espinal e diabetes.
A grande dificuldade e um importante fator limitante para a aplicação
dessa tecnologia de forma ampla é a questão ética no uso de embriões
humanos, bem como a rejeição tecidual após o transplante dessas células
em pacientes.
Células-Tronco Pluripotenciais Induzidas
(iPS)
Com o intuito de contornar a rejeição celular, foi criada uma maneira de
gerar essas células pluriopotenciais diretamente das próprias células do
paciente. Células somáticas são reprogramadas transferindo seus conteúdos
nucleares em oócitos ou por fusão com células-tronco embrionárias
contendo fatores que podem conferir totipotência ou pluripotência a células
somáticas, sendo chamadas de células-tronco pluripotenciais induzidas
(induced pluripotent stem – iPS).
Yamanaka et al., em 2006, publicaram um trabalho em que examinaram
tais fatores que poderiam induzir pluripotência em células somáticas. Dessa
forma, culturas de fibroblastos embrionários de ratos foram capazes de
gerar células pluripotentes induzidas (iPS).
Células Pluripotentes Muito Pequenas
(VSELs)
No mesmo ano em que as células iPS foram relatadas, Ratajczak et al., da
Universidade de Louisville, Estados Unidos, publicaram a descoberta das
células pluripotentes muito pequenas (VSELs), com características
semelhantes às células-tronco embrionárias.
Ratajczak diz se tratar de células-tronco primitivas, endógenas e
pluripotentes que supostamente sofrem divisões celulares assimétricas para
autorrenovar e dar origem a células “progenitoras” de células-tronco um pouco maiores, que, por sua vez, se dividem rapidamente, passam por
expansão clonal e se diferenciam em tipos celulares específicos de tecidos,
mantendo a homeostase ao longo da vida em vários órgãos do corpo.
Até hoje, a própria existência de VSELs não é bem aceita
cientificamente. As razões para isso são que as VSELs existem em baixo
número, permanecem dormentes em condições homeostáticas e são muito
pequenas. Tal aspecto dificulta seu estudo e, além disso, um
desequilíbrio na função das VSELs (proliferação não controlada) poderia
resultar em algum tipo de câncer.
Uma recente revisão sistemática de Bhartiya et al. constatou que, uma
vez que as VSELs passam grande parte da vida quiescentes, possivelmente
não acumulam mutações genômicas (nucleares ou mitocondriais) e,
portanto, poderiam ser ideais candidatos de células-tronco pluripotentes
endógenas, tanto para o uso na medicina regenerativa quanto na
reprodutiva.
A presença de VSELs em gônadas adultas e o fato de que sobreviveram à
oncoterapia podem evitar a necessidade de banco de tecido gonadal para a
preservação da fertilidade antes de tratamentos quimioterápicos. VSELs e
sua capacidade de se submeterem a espermatogênese/neo-oogênese na
presença de um nicho saudável ajudarão a identificar novas estratégias para
a restauração da fertilidade.
Geração In Vitro do Gameta Masculino
A geração in vitro de gameta masculino ainda é um desafio para a medicina
regenerativa e o tratamento da infertilidade. O maior obstáculo encontrado
ultimamente é uma replicação fiel da meiose para obtenção de gameta —
célula haploide — em cultura.
Recentemente, na Universidade Médica de Nanjing, na China, Zhou et al.
conseguiram realizar em ratos a meiose in vitro completa de células
germinativas primordiais derivadas de células estaminais embrionárias. A
injeção intracitoplasmática das células semelhantes a espermátides, em
oócitos, resultou em descendente viável e fértil, mostrando que essa
abordagem pode recriar funcionalmente a gametogênese masculina in vitro.
Esses achados fornecem uma importante base para que a gametogênese, a
partir de células humanas, possa ser realizada in vitro em um futuro próximo.