Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Avaliação dos Efeitos da Varicocele no Potencial Reprodutivo
Classificaçã Diagnóstico Relevância
o Clínica
Subclínica Ultrassom doppler colorido Não
Grau I Não visível. Palpável apenas com a manobra de valsalva Não
Grau II Não visível. Palpável sem a necessidade de manobra Sim
vasalva
Grau III Visível e palpável sem a necessidade de manobra vasalva Sim
O exame de ultrassom de bolsa testicular com doppler colorido,
habitualmente solicitado para a grande maioria dos pacientes, deveria
ser realizado apenas nos casos de dúvida diagnóstica ou na
impossibilidade de palpação da bolsa testicular, como na presença de
hidrocele.
A aferição do volume testicular pelo orquidômetro de Prader ou até
mesmo pela realização de ultrassom de bolsa testicular é uma importante
etapa do exame físico em adolescentes com a presença de varicocele
clínica, visto que o desenvolvimento dos testículos fornece uma importante
contribuição para o manejo desta doença.
Avaliação dos Efeitos da Varicocele no
Potencial Reprodutivo
Enquanto o espermograma no homem adulto assume papel de fundamental
importância para a indicação de cirurgia de correção de varicocele, o
mesmo não se aplica na avaliação do adolescente. A imaturidade do eixo
hipotálamo-hipófise-testículo no período da adolescência torna a análise
seminal um exame pouco confiável. Se até hoje não sabemos definir quem é
o verdadeiro homem adulto fértil pelo espermograma, o que se pode dizer
então de uma análise seminal de um adolescente em plena transformação
hormonal, ainda com a imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal?
Embora há muitos anos haja o conhecimento de que o surgimento da
varicocele ocorre no período peripubertal, a comunidade científica voltou
seus estudos com mais atenção para o homem adulto e a capacidade de
reversão do potencial fértil perdido. Poucos grupos se dedicaram ao estudo da varicocele na adolescência, seus efeitos e o valor do tratamento precoce
na prevenção da perda de fertilidade futura.
No final dos anos 1990, Cedenho et al. foram os primeiros autores a
publicarem o impacto negativo da varicocele no potencial reprodutivo do
adolescente ao demonstrarem um prejuízo na ligação do espermatozoide na
zona pelúcida. Na sequência desse estudo, o mesmo grupo, liderado por
Mori et al., ao estudar 360 adolescentes, demonstrou o impacto negativo da
varicocele clínica tanto no volume testicular quanto na qualidade seminal.
Ao analisar o grupo com varicocele grau III, o estudo mostrou uma redução
significativa do número de espermatozoides móveis do ejaculado.
Novos conceitos de avaliação da varicocele em adolescentes foram
surgindo, como a realização de um exame físico anual de adolescentes para
a detecção de varicocele clínica e a aferição do volume testicular por meio
de orquidômetro de Prader ou ultrassom de bolsa testicular. Essas simples
medidas não invasivas, realizadas em um consultório médico, passaram a
assumir importante função tanto para a avaliação do dano testicular quanto
para a indicação de correção cirúrgica de varicocele.
Recomenda-se hoje: adolescentes com varicocele clínica (grau II e
III) e redução do volume testicular ipsilateral com diferença acima de
20% em relação ao testículo contralateral apresentam indicação formal
para a correção cirúrgica, preferencialmente pela técnica de Marmar.
Estudos mostram que a recuperação do volume testicular afetado pela
varicocele pode ser esperada em até 80% dos adolescentes submetidos à
varicocelectomia microcirúrgica, em um efeito denominado catch-up
growth. Além da recuperação quantitativa, estudos recentes demonstraram
que a correção cirúrgica tem a capacidade de recuperar a integridade do
DNA e a atividade mitocondrial, melhorando a qualidade da função
espermática.
O encaminhamento do adolescente masculino para uma avaliação
médica, entretanto, acaba esbarrando na ausência de cultura dos pais em
levá-lo para uma avaliação de saúde geral com um urologista, em
contraponto à atitude de meninas adolescentes, que comumente são
encaminhadas ao ginecologista assim que entram na puberdade. Somada à
comum ausência de sinais ou sintomas da presença de varicocele no
adolescente, essa doença pode passar anos sem ser diagnosticada, levando o
homem adulto a procurar ajuda especializada em infertilidade conjugal por apresentar alterações importantes no espermograma. Em muitos casos, a
correção cirúrgica de varicocele não apresenta mais o potencial de
normalização quantitativa da espermatogênese, restando as técnicas de
reprodução assistida como único meio de adquirir uma gravidez com suas
parceiras.
O último consenso da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva
(American Society for Reproductive Medicine – ASRM) sobre varicocele,
datado de 2014, explica de uma maneira objetiva como realizar a avaliação
e a indicação da correção cirúrgica de varicocele em adolescentes
(Figura 4.1). Importante ainda sempre atentar ao grau existente de
desenvolvimento sexual de Tanner no adolescente durante o exame físico,
pois quando o estágio é IV ou V, pode-se inferir que já existe uma
maturação hormonal suficiente para acreditar na veracidade do resultado da
análise seminal.
FIGURA 4.1 Fluxograma de Indicação de Varicocelectomia no Adolescente.
Tratamento O objetivo da correção cirúrgica da varicocelectomia é a ligadura das veias
testiculares varicosas, porém com a preservação dos vasos linfáticos, da
artéria espermática interna e de todo o compartimento posterior do cordão
espermático, compreendendo vaso deferente, artéria e veia deferenciais. A
técnica cirúrgica mais indicada para a correção da varicocele clínica é
a subinguinal com uso de microscópio cirúrgico, também conhecida
como a técnica de Marmar, em reconhecimento ao seu criador Dr. Joel
L. Marmar. Esta é a técnica preferencialmente utilizada por urologistas
especializados em infertilidade masculina, mesmo sendo considerada uma
cirurgia difícil, pois necessita de conhecimento e prática em microcirurgia.
Como resultado, a taxa de recorrência com o uso dessa abordagem é de
cerca de 1%, com apenas 0,44% de formação de hidrocele e mais segurança
para a preservação da artéria testicular. Outras técnicas cirúrgicas são
utilizadas, mas sem a mesma efetividade da microcirurgia à Marmar.
Técnicas como a videolaparoscopia, a retroperitoneal de Palomo, a inguinal
de Ivanissevich e a embolização da veia gonadal interna com agentes
esclerosantes são outras formas de correção de varicocele passíveis de
serem utilizadas, porém sem a mesma efetividade do tratamento
considerado padrão- -ouro de Marmar.
Conclusão
Nos últimos 20 anos, a ciência evoluiu muito quanto ao melhor
entendimento dos mecanismos de ação da varicocele na espermatogênese e
suas consequências nefastas ao potencial de fertilidade. Entretanto, pouco
se avançou quanto à efetividade do tratamento da varicocele, especialmente
no melhor momento da indicação cirúrgica para correção da varicocele em
adolescentes. A indicação da varicocelectomia à Marmar em adolescentes
ainda se baseia na comprovação do dano à espermatogênese (observada
pela piora do exame de análise seminal) ou na evidência de assimetria
testicular.
Quando indicamos a cirurgia para o adolescente, o médico está
embasado, portanto, no dano já estabelecido à espermatogênese. Nesse
momento não existe ainda uma indicação cirúrgica precisa para
aqueles adolescentes que têm varicocele, mas que ainda não
apresentaram prejuízo à espermatogênese. Isso ocorre devido à incapacidade do urologista em discernir clinicamente qual adolescente com
varicocele grau II ou III irá realmente apresentar restrição ao crescimento
testicular ou piora da análise seminal no futuro. Caso esse conhecimento
fosse uma realidade, o adolescente poderia ser submetido à correção
cirúrgica com precocidade, evitando, assim, a instalação do dano à
espermatogênese.
Em face dessa dificuldade, novas abordagens científicas estão sendo
utilizadas para que se possa entender qual adolescente com varicocele
clínica irá desenvolver um quadro de infertilidade no futuro e, portanto, se
beneficiaria de uma indicação de correção cirúrgica precoce. Por ser o
plasma seminal rico em proteínas, uma nova técnica tem se destacado,
conhecida como proteômica. A pesquisa de um marcador proteico no
plasma seminal, indicador precoce de prejuízo à espermatogênese,
possibilitaria a indicação da correção de varicocele antes que a sua
expressão clínica seja observada no espermograma ou na redução no
volume do testículo afetado. A descoberta de um possível marcador
específico poderia, no futuro, ser utilizada em exames laboratoriais e fazer
parte da avaliação clínica em adolescentes com varicocele. Vários
pesquisadores têm se destacado na procura de marcadores proteicos
relacionados com a homeostase da espermatogênese. Muito provavelmente,
em um futuro próximo, a avaliação clássica da varicocele com
espermograma e volume testicular poderá ser acompanhada de estudos de
genômica e proteômica para a melhor caracterização das proteínas do
plasma seminal, auxiliando na escolha do adolescente que poderá se
beneficiar de uma cirurgia precoce de varicocelectomia.
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