Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Infecções Virais
Infecção por Micoplasma e Ureaplasma
A prevalência da infecção por micoplasma do sêmen é bastante variável,
com uma prevalência observada de M. genitalium de 7,4% em homens
inférteis comparada com 3,2% em controles férteis.
Já os ureaplasmas genitais (Ureaplasma urealyticum e Ureaplasma
parvum) são habitantes naturais da uretra masculina, contaminando o sêmen
durante a ejaculação. Entretanto, esses organismos (especialmente U.
urealyticum) são potencialmente causadores de infecções do TGM e
infertilidade masculina. A presença de U. urealyticum no TGM é crônica e
assintomática e causa disfunção das glândulas acessórias sexuais, bem
como pode causar uretrite, prostatite, epididimite e infertilidade. Em
pacientes infectados foram observados aumento da viscosidade do esperma,
diminuição nos valores de pH do esperma, inibição da motilidade
espermática. A prevalência de U. urealyticum em amostras de sêmen de
pacientes inférteis varia de 5% a 42%. A presença de U. urealyticum pode
apresentar efeitos deletérios no esperma, levando a um desenvolvimento
embrionário alterado.
O diagnóstico das infecções por micoplasma e/ou ureaplasma pode ser
feito por métodos de cultura ou por técnicas de detecção de biologia
molecular (reação em cadeia da polimerase – PCR) de urina, swab uretral,
secreção uretral, secreções prostáticas ou sêmen. O tratamento pode ser
realizado com azitromicina ou doxiciclina. Técnicas de lavagem
espermática estão disponíveis e podem ser utilizadas também; contudo,
tanto o ureaplasma quanto o micoplasma permanecem aderidos à superfície
espermática.
Infecções Virais
O sêmen é um dos mais importantes vetores na transmissão de doenças
virais e na transmissão direta via horizontal a um (a) parceiro (a) e
posteriormente, verticalmente ao feto ou neonato. Diversos vírus podem
estar presentes nas células livres no sêmen, em células seminais, incluindo
macrófagos, linfócitos e espermatozoides. Esses vírus possuem a aptidão de
infectar o tecido reprodutivo masculino (TRM) e o sêmen e, por
consequência, alterar a integridade dos órgãos do TRM, causar doenças e alterações no sistema reprodutivo e endocrinológico. A infecção viral de
células germinativas pode não só acusar alterações na função testicular, mas
também na transmissão de mutações induzidas por vírus para gerações
subsequentes. Dessa forma, a prevenção, o diagnóstico e o tratamento
precoce se tornam de suma importância na abordagem do cuidado da saúde
masculina. Vale ressaltar que, apesar da evolução no tratamento de algumas
dessas infecções, boa parte dos antivirais e antirretrovirais podem induzir
lesão testicular, contribuindo ainda mais para as alterações nos parâmetros
espermáticos.
Papilomavírus Humano (HPV)
O vírus do HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum entre
homens e mulheres no mundo. Até hoje, mais de 150 genótipos de HPV
foram sequenciados, dentre estes, 40 estão associados a infecções genitais.
Os HPVs anogenitais têm sido classificados em baixo e alto risco para
lesões carcinogênicas. Existem 12 genótipos de HPVs (16, 18, 31, 33, 35,
39, 45, 51, 52, 56, 58, 59) definidos como de alto risco para neoplasias
malignas.
A presença da infecção por HPV provoca alterações no espermograma,
incluindo contagem anormal, redução da mobilidade, baixa capacidade de
fertilização, produção de anticorpos contra o esperma e diminuição do
conteúdo de DNA do doador, sendo o seu DNA frequentemente encontrado
no sêmen de homens com astenozoospermia idiopática e infertilidade
masculina. Em contrapartida, um estudo não observou a presença de HPV
DNA em células de controles férteis, corroborando a hipótese da associação
entre infecção pelo HPV e infertilidade. Dados sobre a infecção pelo HPV
durante a concepção e o desenvolvimento de desfechos adversos
gestacionais (p. ex., aborto) e neonatais variam conforme o método da
concepção.
Nenhum risco foi observado com a concepção natural; entretanto, já com
a fertilização in vitro (FIV) ou inseminação intrauterina (IUI) ou injeção
intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), observou-se uma taxa maior
de abortos espontâneos em indivíduos masculinos de casais inférteis
expostos ao HPV DNA comparados com não expostos. Esses achados
levantam preocupações específicas, principalmente nos casais que serão submetidos a técnicas de reprodução assistida ou criopreservação
terapêutica, pois já existem estudos in vitro revelando que o HPV DNA
pode impactar negativamente os resultados de técnicas, mais
especificamente na queda das taxas de implantação e taxas de gravidez.
O diagnóstico confirmatório da infecção pelo HPV se dá por utilização
de técnicas de hibridização in situ, captura híbrida e PCR para detecção do
HPV, sendo a PCR um método com alta acurácia. Com relação ao
tratamento da infecção pelo HPV, o tratamento fica limitado aos efeitos
diretos da infecção viral, como a retirada do tecido infectado pelo HPV
(p. ex., verrugas genitais). Atualmente, nenhum tratamento antiviral que
atue diretamente na eliminação viral se encontra disponível.
Contudo, considerando não só o efeito negativo da infecção pelo HPV do
esperma e o impacto na motilidade espermática, mas também a alta
prevalência de HPV DNA em homens com infertilidade idiopática, diversos
autores propuseram técnicas de lavagem de esperma para redução da
infecção viral, especialmente, homens que irão utilizar técnicas assistidas de
reprodução ou casais que irão utilizar sêmen de banco de doadores. Dentre
as diferentes técnicas de lavagem espermática, apenas a técnica de swim-up
modificada (técnica de swim-up tradicional com adição de heparinase III)
mostrou remoção completa do HPV DNA dos espermatozoides comparada
com a técnica tradicional de swim-up que reduziu em apenas 24% a carga
viral.
Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)
O HIV possui como principais rotas de transmissão a via sexual
(transmissão horizontal), via contato com sangue infectado, via uso de
drogas intravenosas ou inalatórias e via perinatal (da gestante para o feto ou
recém-nato, via vertical). O HIV encontra-se presente no sêmen logo após a
infecção primária e nos estágios subsequentes da infecção. Existe uma
relação entre a carga viral no sangue e no sêmen, mas neste último, pode
haver variação de acordo com o estágio da infecção e da doença, a presença
de outra coinfecção no TRM, o uso da terapia antirretroviral e a adesão à
mesma. O sêmen contém três grandes fontes de HIV infectante: vírions
livres, vírions associados a espermatozoides e leucócitos infectados. O
mecanismo de infertilidade masculina induzida pelo HIV tem sido postulado como decorrente da replicação viral no trato seminal, levando a
uma reação imunomediada com aumento da presença de células CD4+ e
macrófagos com elevação das concentrações de citocinas circulantes e
subsequente inflamação. Já o papel dos espermatozoides na transmissão
sexual do HIV tem sido postulado como carreador passivo de vírions
aderidos à superfície dos espermatozoides. Com relação à presença do vírus
em tecido testicular e o impacto na produção seminal, alguns estudos
demonstraram a presença de HIV em células germinativas testiculares. Em
homens infectados pelo HIV, os parâmetros espermáticos encontram-se
dentro da faixa da normalidade. Contudo, com a progressão da doença para
AIDS e seus diferentes estágios, foram observadas anormalidades
morfológicas, dano do DNA, alterações da motilidade, diminuição do
volume, apoptose e aneuploidia espermática. Essas alterações têm relação
ainda com presença de orquite crônica e consequente hipogonadismo, bem
como o uso de terapia antirretroviral. Alguns antirretrovirais causam
diminuição do volume ejaculado, diminuição das formas móveis
progressivas e alterações de forma dos espermatozoides.
O diagnóstico da presença da infecção consiste na realização de
sorologias com método de ELISA e confirmatório com método de Western
blot. Uma vez confirmada a infecção, deve-se realizar contagem de CD4 e
CD8 e de carga viral no sangue (PCR RNA), além de iniciar terapia
antirretroviral imediata. Do ponto de vista da avaliação da presença do vírus
no esperma, técnicas moleculares (PCR) com pesquisa do RNA viral têm
sido utilizadas antes e após a lavagem do esperma. Além da terapia
antirretroviral que suprime a carga viral no sangue e, por consequência, do
sêmen de homens infectados pelo HIV com aumento da taxa de sucesso de
técnicas de reprodução assistida, condutas associadas de lavagem de
esperma têm sido utilizadas em casais sorodiscordantes como a técnica de
centrifugação por gradiente de densidade seguido da técnica de swim-up.
Vírus Herpes Simplex
O vírus Herpes Simplex (HSV) é um dos mais comuns da população
humana, e a infecção do TGM pode ser causada tanto pelo HSV-2 quanto
pelo HSV-1. Este último é causador de lesões orais e, ocasionalmente,
lesões genitais, enquanto o primeiro é a causa mais comum de herpes do TGM. A alteração da fertilidade causada pelo HSV está relacionada não só
com uma alteração da função epididimal e prostática, mas também com a
degeneração de células espermatogênicas, falha na interação entre as
células de Sertoli e células germinativas e perda das células germinativas
por apoptose. Estudos mostram uma associação entre a presença de HSV
DNA e a oligoespermia, redução da motilidade, alterações estruturais do
esperma e presença de células apoptóticas. Cabe ressaltar que existe uma
correlação inversamente proporcional entre a quantidade de líquido seminal
e a capacidade de adesão do HSV-2 ao espermatozoide.
Além da sorologia específica para HSV-1 e HSV-2 para detecção de IgM
e IgG no sangue da presença de infecção ativa, métodos moleculares (PCR)
para detecção do HSV DNA no sêmen podem ser utilizados no diagnóstico.
O HSV pode ser transmitido da mãe ao filho durante a gestação ou o parto.
A presença da infecção pelo HSV está associada a uma maior taxa de falha
nos procedimentos de fertilização. As condutas no tratamento de esperma
infectado pelo HSV não estão bem definidas. O uso de técnicas de lavagem
utilizando gradiente duplo de centrifugação parece não ser capaz de
eliminar as partículas virais. Entretanto, o tratamento com aciclovir se
mostrou eficaz e resultou em gestações saudáveis e acompanhamento do
sêmen ocorrendo de forma mensal após o tratamento.
Vírus da Hepatite B
A infecção pelo HBV leva à infertilidade masculina por dano espermático,
alteração de concentração espermática, motilidade, morfologia e
viabilidade. A presença de HBV crônica altera os parâmetros do esperma,
reduzindo particularmente os espermatozoides móveis progressivos,
aumentando a frequência de aberrações cromossômicas espermáticas e a
proporção de apoptose e necrose espermática. Existe uma correlação
negativa entre os parâmetros espermáticos e a carga viral.
Sobre o diagnóstico de HBV DNA no sêmen, vários métodos podem ser
utilizados incluindo hibridização in situ (pelo método de FISH) ou métodos
quantitativos de RT-PCR para quantificar a carga viral de HBV DNA em
pacientes que irão realizar reprodução assistida. Além do tratamento com
antivirais como tenofovir, lamivudina e entecavir da infecção pelo HBV
com o objetivo de reduzir a carga viral e evitar mutações de resistência, estratégias de lavagem de esperma reduzem de forma efetiva a quantidade
de HBV no sêmen, reduzindo de forma significativa o risco da introdução
de HBV no oocisto (no caso de ICSI). Entretanto, a integração do HBV nas
células espermáticas faz com que estas funcionem como vetores na
transmissão de genes de HBV durante os procedimentos de FIV e ICSI.
Com relação aos desfechos de ICSI e de transferência de embriões na
presença de HBV, os resultados são contraditórios, com autores mostrando
resultados positivos e outros negativos. Pode ocorrer também um processo
conhecido como transmissão vertical paterno-fetal, em que a fertilização
embriônica com espermatozoides contendo HBV permite que o vírus se
replique sozinho e expresse proteínas virais em células embrionárias.
Dessa forma, torna-se de extrema importância a avaliação da parceria
com painel de sorologias para HBV (HbsAg, anti-HbsAg, anti-Hbc IgM e
IgG, HbeAg, anti-HbeAg) e a imunização com três doses em mulheres
suscetíveis (esquema 0, 1, 6 meses) com avaliação da soroconversão de
anti-HbsAg com intervalo mínimo de 1 mês após a última dose.
Vírus da Hepatite C
A infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) produz baixos níveis de carga
viral de HCV seminal, e o risco de transmissão heterossexual do HCV é
baixa, mas não negligenciável. A atividade sexual é bem menos eficiente na
transmissão do HCV do que por via sanguínea. Uma taxa de 5% de
transmissão horizontal e vertical foi relatada. A transmissão sexual do HCV
ocorre de forma mais frequente em pacientes coinfectados por HIV, porém
esse achado não é observado de forma consistente.
Algumas alterações dos parâmetros do esperma foram observadas na
presença da infecção pelo HCV como motilidade reduzida, morfologia
anormal, baixa contagem de espermatozoides, um maior nível de diploidia
espermática; sugerindo que apotose e necrose espermática desempenham
um papel importante nesses pacientes. Os indivíduos HCV infectados
possuem alto nível seminal de ROS, e alterações significativas no potencial
de membrana mitocondrial espermática, compactação de cromatina,
fragmentação de DNA e uma maior presença de espécies oxigênio reativas
foram observadas em pacientes cronicamente infectados pelo HCV. Alguns autores demonstraram melhora da qualidade do esperma após uso de terapia