Condutas Práticas em Infertilidade e Reprodução Assistida: Homem
Esteroides Anabolizantes — O que o urologista deve conhecer?
casais consiga conceber com sucesso dentro do período de um ano,
aproximadamente 15% da população apresenta dificuldade em obter
gestação. Cerca de 20% dos casos de infertilidade estão relacionados apenas
com o fator masculino, com um adicional de 30% a 40% dos casos
envolvendo tanto homens quanto mulheres. Portanto, o fator masculino está
presente em até 60% dos casais inférteis.
A infertilidade masculina pode ocorrer devido a uma grande variedade de
condições. O hipogonadismo hipogonadotrófico é um exemplo típico de
condição reversível, e, por vezes, o efeito sobre o eixo hipotálamo-
pituitário-gonadal pode ser causado pelo uso de determinados fármacos, tais
como os EAA. Além dessa via fisiopatológica, temos as substâncias que
podem causar deficiência testicular por dano direto, levando à disfunção
reprodutiva quase sempre irreversível. Os EAA classicamente induzem
infertilidade pela inibição do eixo hipotálamo-hipófise-gônada; no entanto,
novas evidências apontam para ocorrência de dano testicular direto, com
potencial caráter definitivo, algo extremamente preocupante.
Este capítulo compila as mais recentes evidências a respeito do impacto
dos EAA na fertilidade masculina, além de revisar mecanismos de ação,
classificações químicas e funcionais dos esteroides, padrões de uso,
complicações e estratégias médicas que podemos adotar diante de pacientes
usuários de tais substâncias. É importante ressaltar que a literatura
relacionada com este tema é ainda bastante escassa, mesmo existindo
razoável aumento na incidência de usuários de esteroides em vários países,
em particular entre jovens do sexo masculino.
Esteroides Anabolizantes — O que o
urologista deve conhecer?
Fatos sobre a Testosterona
A testosterona é, de longe, o andrógeno mais importante do corpo humano.
Os efeitos dos andrógenos aparecem em vários tecidos, cumprindo
diferentes funções em todas as fases da vida, incluindo o surgimento das
características sexuais secundárias masculinas, como mudança de voz, padrão de crescimento de pelos, atividade das glândulas sebáceas,
maturação do esperma e aumento da libido. Todos esses efeitos são
considerados como parte do efeito virilizante ou “androgênico”.
A síntese diária de testosterona encontra-se entre 2,1 e 11,0 mg em
homens adultos, e entre 1,0 a 4,0 mg em mulheres. O nível normal de
testosterona no plasma em homens oscila entre 280 e 1.000 ng/dL,
diminuindo progressivamente com a idade. A testosterona tem alguns
destinos metabólicos possíveis, muito bem definidos. Primeiro, ela se liga
ao receptor de andrógeno (RA) nos tecidos-alvo para exercer efeito
anabólico e androgênico. Após exercer seu efeito, pode ser transformada
em di-hidrotestosterona (DHT) em locais como couro cabeludo, fígado,
próstata e nos testículos; ou convertida em hormônios femininos (por meio
de um processo chamado aromatização) levando a efeitos tipicamente
estrogênicos, como retenção de água, crescimento de tecido mamário e
aumento na deposição de gordura corporal.
Anabolismo versus Androgenismo
Junto com os efeitos “androgênicos” ocorrem as mudanças anabólicas. O
anabolismo é definido como qualquer estado no qual o nitrogênio é
diferencialmente retido na massa corporal magra pela estimulação da
síntese de proteínas e/ou uma redução de degradação proteica. No contexto
clínico, esse estado inclui a intensificação na taxa de síntese proteica, o
aumento de tamanho dos músculos, do metabolismo ósseo e da síntese de
colágeno. Caracteristicamente, os produtos mais anabólicos apresentam
ligações mais fracas de RA em vários pontos. Por outro lado, os esteroides
androgênicos se ligam com mais força aos RAs, proporcionando um efeito
nitidamente mais potente. Uma vez que a testosterona é a base dos EAAs,
costuma-se dizer que tem uma proporção de 1:1 em relação ao efeito
anabólico-androgênico, o que habitualmente se toma como base para
comparações e descrição de maior ou menor potência anabólica ou
androgênica de qualquer derivado sintético desse hormônio.
Esteroides Anabolizantes: além da
testosterona Algumas mudanças estruturais foram introduzidas na molécula da
testosterona com o objetivo de tentar maximizar o efeito anabólico e
minimizar os efeitos androgênicos. Porém, todos os EAAs são virilizantes
se administrados por tempo suficiente, em dosagens altas. Essas
modificações químicas tendem, principalmente, a alterar a potência
anabólico-androgênica relativa, reduzem a taxa de inativação e diminuem a
sua aromatização em estradiol. Os efeitos anabólicos da testosterona (e dos
EAA) dependem de sua dose e ocorrem apenas quando os valores séricos
da concentração de testosterona estão em níveis acima da faixa normal, os
quais geralmente exigem administração doses semanais de 300 mg ou mais
(uma clara condição suprafisiológica).
Tradicionalmente, os EAA são classificados de acordo com a via de
administração e o seu solvente de transporte:
• Preparações orais de EAA, ou esteroides 17α-alquilados: A 17α-
alquilação, basicamente, permite que estes produtos se tornem
absorvíveis por via enteral, com consequente necessidade de efeito de
primeira passagem hepática. Caracteristicamente, a maioria dessas
substâncias é absorvida no estômago ou no intestino delgado
proximal e tem uma meia-vida curta, por isso são necessárias várias
doses diárias para manter a concentração adequada no sangue. A
ingestão desses compostos deve sinalizar a necessidade de avaliação
de agressão hepática.
• Preparações parenterais de EAA ou esteroides 17β-esterificados:
resumidamente, quanto maior o comprimento da cadeia do grupo
ácido, maior é a lentidão da liberação do composto na corrente
sanguínea, prolongando, desse modo, a duração da ação. Uma vez na
circulação, a hidrólise do éster corre imediatamente, obtendo-se o
composto ativo. Apresentam meia-vida mais longa e taxa de absorção
mais lenta, gerando menos agressão hepática que os esteroides que
são administrados por via oral. Outro ponto de referência desses
produtos é a ocorrência muito comum de dor no local da injeção,
devido à sua base oleosa, em geral bastante espessa.
Além disso, EAAs também podem ser classificados considerando-se a
principal atividade da substância:
• Efeito “testosterona-like”, muito potente, incluindo um maior ganho
de força muscular. Esses compostos geralmente mostram uma taxa
anabólica/androgênica de 1:1, muito semelhante à testosterona em si.
Isso também explica as altas taxas de aromatização, que são
comparáveis às taxas de testosterona. Essas drogas incluem os ésteres
de testosterona e seus blends.
• Efeitos “di-hidrotestosterona-like” (ou DHT-like): potente, mas
altamente androgênico. Como se parecem moléculas de 5DHT, eles
basicamente não podem ser aromatizados em estrógenos (esta é
característica do grupo). Esse fato também explica a baixa retenção
de água e sal das drogas que fazem parte desse grupo.
• Efeito “nandrolona-like”, o menos potente de todos, no entanto, com
a mais elevada taxa anabólica/androgênica. Essas substâncias têm
uma atividade parecida com a progesterona, inibindo o eixo
hipotalâmico. Essas são as drogas mais usadas no âmbito clínico,
quando se desejam efeitos anabólicos (reverter estados catabólicos,
tais como caquexia, queimaduras graves, sarcopenias em pacientes
recebendo diálise, síndromes de emagrecimento e doença pulmonar
obstrutiva crônica).
Tabela 12.1
Esteroides androgênicos anabolizantes comumente usados
Compostos e NOMES das marcas (Estados Unidos, Europa e
Brasil)
Efeito “testosterona-like”
Nome do composto Nome da marca
Ésteres de Testosterona: Cipionato Deposteron®, Testex Leo®
Ésteres de Testosterona: Undecanoato Nebido®, Androxon®, Durateston®, Testoviron®
Ésteres de Testosterona: Blends Sustanon®, Omnadren®
Metiltestosterona Methyltestosterone®, Metandren®
Metandrostenolona Dianabol®, Anabol®, Naposim®
Clorode-hidrometiltestosterona Turinabol®
Fluoximesterona Halotestin®
Boldenona Equipoise®, Equilon®
Efeitos “DHT-like”
Nome do composto Nome da marca
Estanozolol Winstrol®, Stromba®
Oximetolona Anadrol®, Hemogenin®, Anapolon®
Mesterolona Proviron®
Metenolona Primobolan®
Efeito “nandrolona-like”
Nome do composto Nome da marca
Decanoato de nandralona Decadurabolin®
Fenilpropinato de nandralona Durabolin®
Trenbolona Finaplix®, Parabolan®
Undecanoato de nandralona Dynabolon®
Oxandrolona Anavar®
Padrões de Uso: “empilhamento” e “ciclos” Segundo esses estudos observacionais, as formas de uso de drogas seguem
um padrão típico. Diferentes compostos orais e injetáveis são geralmente
combinados (“empilhados”), gerando um uso de altas dosagens, na maioria
das vezes autoadministradas durante períodos (“ciclos”) que costumam
durar entre 4 a 12 semanas.
O “empilhamento” (ou stacking) de EAA é o método mais utilizado por
indivíduos que fazem uso não medicinal dessas drogas. O conceito geral é
minimizar os potenciais efeitos colaterais e maximizar a eficácia da
utilização. Tomar doses menores de diferentes drogas pode, ao menos em
tese, reduzir a chance de complicações hepáticas quando comparadas a
doses maiores de uma única droga. Pode haver também um aumento de
tolerância do fígado a uma dose menor de diferentes substâncias. Isso
também pode facilitar a administração de múltiplos agentes anabólicos por
longos períodos, minimizando o efeito platô. A revisão das pesquisas
observacionais revela que as dosagens da droga se encontram entre 250 mg
a 3.200 mg de testosterona (ou seu equivalente) por semana. Para atingir
doses suprafisiológicas, a maioria dos usuários combina dois ou mais tipos
diferentes de EAA, em ciclos de 4 a 12 semanas, com períodos variáveis de
intervalo. Os stacks visam combinar de forma racional os compostos com
diferentes características, evitando a sobreposição de vantagens ou efeitos
colaterais. Esse tipo de associação, principalmente entre drogas
“testosterona-like” e “nandrolona-like”, é considerado a base dos chamados
“stacks de ganho de massa”, que visam maximizar o aumento muscular e o
ganho de força. As combinações contendo andrógenos potentes e não
aromatizáveis “DHT-like” são as preferidas quando se pretende obter
definição corporal, devido à falta de atividade estrogênica desse grupo
(menor retenção de água, sal e gordura), compondo os chamados “stacks de
definição”. Alguns ciclos podem combinar ambos, um primeiro ”ciclo de
construção de massa“ e um subsequente ”ciclo de definição“, terminando
com a chamada ”terapia pós-ciclo“, que pode incluir clomifeno, tamoxifeno
e HCG, visando ao reinício da produção de andrógeno, através da
restituição do eixo hipotálamo-hipofisário. Depois dos ciclos, em geral, os
testes ficam dessensibilizados, e os níveis de testosterona começam a subir
após 10 semanas (ao contrário dos níveis de LH, que na maioria das vezes
começam a aumentar após 2 a 3 semanas). Assim, o objetivo é obter níveis
elevados de gonadotrofina para estimular suprafisiologicamente os testículos e associar um efeito antiestrogênico, uma vez que a aromatização
costuma provocar elevados níveis de estrógeno, considerados artificiais, ou
não naturais.
Efeitos Fisiológicos, Clínicos e Colaterais
Alguns efeitos fisiológicos diretos da testosterona e EAAs são bem
conhecidos, sendo praticamente mediados pela ativação do receptor
androgênico. Eles incluem um aumento na eritropoiese renal, na lipólise
geral (levando a uma diminuição na gordura corporal total), na síntese de
proteínas, na secreção sebácea, no crescimento de pelos do corpo e do
couro cabeludo, além de na libido. Não obstante, estes não são os únicos
efeitos do uso de testosterona. Há também um aumento na creatina
muscular (que faz parte da síntese de ATP, e, portanto, uma fonte de energia
durante o metabolismo anaeróbico, que gera resistência atlética e ganho
muscular precoce). Esse aumento na atividade muscular é certamente uma
das causas principais do uso de esteroides. É necessário entender o
anabolismo muscular para compreender como a testosterona age sobre o
mesmo. É uma simplificação grosseira resumir tais efeitos como um mero
aumento na síntese de proteínas: trata-se de um fenômeno mais complexo
que envolve, basicamente, hipertrofia das fibras musculares esqueléticas,
que contêm células musculares e também células satélites indiferenciadas.
Os efeitos colaterais durante o uso de EAA são igualmente bem
conhecidos, e devem ser sempre considerados quando se lida com um
usuário. Problemas de saúde graves não são habituais entre os indivíduos
que utilizam anabolizantes de maneira esporádica, e os efeitos adversos
mais comuns são benignos e reversíveis. Infelizmente, a real incidência de
complicações diretamente relacionadas com o abuso de EAA não é clara.
Em geral, a acne está relacionada com um forte efeito androgênico, muitas
vezes relacionada com a conversão de testosterona em DHT (ou uso de
drogas “DHT-like”). Isso também explica tanto a ocorrência de alopecia
entre usuários de potentes esteroides androgênicos quanto os sintomas do
trato urinário, devido ao aumento da próstata.
Disfunção erétil, queda de libido e disfunções orgásmicas geralmente
ocorrem após a descontinuação dessas substâncias, uma vez que o eixo
hipotalâmico é muitas vezes inibido e a testosterona endógena tende a ficar em níveis baixos, gerando uma real situação de hipogonadismo