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Capítulo 6
O caseiro Rato pega no cajado e caminha até à rua. O sol nasceu há pouco e há algum nevoeiro espalhado pelo chão. O muro que limita a propriedade de Miss Whittemore, a milionária inglesa para quem trabalha, tem quase três metros de altura e a parte da frente tem mais de oitenta metros de comprido. É um muro impecavelmente branco, caiado todos os anos, que reflete a luz de todos os dias. O caseiro Rato olha para o muro e cerra os punhos. Não é a primeira vez que acontece, e é por isso mesmo que se sente rebentar de fúria: o muro está pintado com versos em tinta preta que escorre gotas até ao chão. Assinados por um tal de Diógenes de Oenoanda.
Toda a gente sabe quem faz aquelas coisas, quem anda a pintar versos da
antiguidade grega, mas é preciso apanhá-lo em flagrante. O sargento Oliveira ficou uma semana de vigia, mas nesse período não aconteceu nada. Mal o sargento se foi, logo na manhã seguinte, a parede apareceu pintada outra vez. O sargento retomou a vigília, desta vez por um período maior. Não teve sucesso e, mal desistiu, o muro apareceu pintado mais uma vez. Decidiram que o sargento deveria aparecer de surpresa, mas o muro continuava a ser alvo de vandalismo filosófico, mais concretamente, epicurista. O caseiro Rato mandava limpar e caiar a parede mal aquilo acontecia, e a dona da mansão, Miss Whittemore, parecia completamente alheada do que se passava.
O caseiro odeia aquela tinta preta a estragar a paisagem branca e luminosa do
muro. Há um grande esforço dos homens, da civilização, por manter paredes brancas, e o caseiro Rato abomina a noite, que é o tempo dos inimigos da ordem: os homens caiam as casas de branco, mas a noite pinta tudo de preto. Ele sabe que o autor só pode ser o professor, e isso ainda o irrita mais.
Quando o caseiro e o professor Borja se encontram na taberna do Zé Romão,
insultam-se e, por vezes, têm de os agarrar para não andarem à pancada. Conhecem-se desde miúdos e detestam-se desde miúdos. O caseiro Rato ainda anda com um dente do professor na carteira e exibe-o sempre que o quer enfurecer: é um troféu de uma das suas brigas, de quando ambos tinham sete anos e Rato fez saltar da boca do professor, com um soco bem aplicado, um dente incisivo.
O caseiro usa calças de fazenda com um padrão geométrico, seja Inverno ou
Verão, botas de pele cosidas à mão e um chapéu de feltro preto. Tem um nariz muito grande, braços cheios de veias salientes e mãos rudes, um corpo essencialmente analfabeto. Cresceu a lidar com os animais, especialmente touros e ovelhas. O pai era forcado e deixava-o a apascentar o gado quando andava nas touradas. A sua mulher, Guilhermina, tem cara de boi e é mesmo assim que a chamam: Cara de Boi. O próprio marido faz piadas sobre isso e toda a gente se ri da cara dela. É Guilhermina que caia o muro de cada vez que o professor Borja o pinta com tinta preta. De tanto os apagar, já sabe de cor alguns versos do epicurista Diógenes de Oenoanda.
A taberna de Zé Romão tem azulejos até meio da parede e mesas de metal
pintado de azul com tampo a imitar mármore. A metade superior das paredes está pintada de um amarelo muito claro. Os móveis são de mogno e a seleção de vinhos é relativamente boa. Zé Romão cheira a enchidos e tem corpo de farinheira, olhos pequenos e sobrancelhas finas como se tivessem sido depiladas. As olheiras negras como a morte dançam debaixo dos olhos que quase não existem.
— Toda a gente sabe que és tu — diz Zé Romão. O professor Borja encolhe os ombros. Há uns meses, o sargento Oliveira
encostou-o a uma parede e deu-lhe uns tabefes. Dois dias depois, foi violentamente espancado por um homem encapuzado. A marca que lhe ficou na cara não deixava dúvidas: era a marca do anel do sargento Oliveira. No entanto, não tem medo dele e continuará a pintar o muro. Mas não o admite a ninguém, não há testemunhas.
— Não sei quem é que anda a pintar o muro, mas eu não sou. Se fosse eu, eu
saberia, não é?
— Tretas.
— Mas acho curioso e aprovo. Houve um gajo chamado Diógenes de Oenoanda
que era tão rico, Deus o perdoe, que mandou construir um muro como o da inglesa e nele mandou gravar uma súmula do pensamento de Epicuro. Vinte e cinco mil palavras num muro para ensinar as pessoas a viverem felizes. Não há melhor maneira de aplicar a fortuna. E aquilo era o oposto da publicidade, fazendo publicidade. Todas as campanhas nos dizem para comprar, mas aquele muro dizia o oposto: fazia publicidade contra o consumo, contra a ganância, contra os excessos. Não é possível imaginar um muro tão bonito quanto aquele. Já vi muita mulher nua e nenhuma se compara com uma parede epicurista. Quando apareceu este muro pintado aqui na terra, quase tão belo como o original, pensei: se deixassem o tal criminoso pintar os versos com os ensinamentos de Epicuro, que lição seria para a sociedade.
— Ninguém duvida que és tu que anda a pintar o muro. — Nunca faria isso. Sou cumpridor. A puta da lei é sagrada. Serve-me mais um
tinto.
— Foda-se — diz Manel Papo. — Confessa lá. O professor olha para ele.
— Não tenho nada para confessar. Se os versos de Diógenes de Oenoanda
aparecem neste século, ele deve ser o culpado. Parece que a sabedoria teima em reaparecer, como os fungos. A gente pinta a parede, mas não adianta, pois não? O fungo reaparece, como a sabedoria.
— Há muitas maneiras de dizer as coisas — diz Papo enquanto coça o nariz
inchado da aguardente. — Quem é que paga a cal?
— Que se foda a cal. Estamos a falar de cultura — diz o professor. — Não és tu que a pagas.
— Aquele muro é um ser vivo. Quando começam a aparecer palavras sobre os
muros, sobre a cal, sobre a terra, sobre as coisas inanimadas, quando começam a surgir pensamentos, estamos perante um homem. A parede começa a pensar, já não é só cal, é como nós, que também somos de pedra com pensamentos a aparecerem pintados na nossa superfície.
— É uma parede, caralho — diz Zé Romão. — Ou vais preso porque és tu que
andas a vandalizar aquilo ou então...
— Não sou eu. Jamais vandalizaria uma parede.