Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 16 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 15

Os almoços em casa de Miss Whittemore são lentos. Os Novos Deipnosofistas, como ela chama aos participantes dos seus almoços, sentam-se sem vontade nenhuma de debater ideias, mas o vinho acaba por vencer essas reservas.

— Como é que uma espécie de budista como a senhora tem tanto ego? —

pergunta o professor a Miss Whittemore.

— Usa-se a lisonja para encher o ego — responde ela. — Este torna-se obeso,

as artérias entopem, e o ego acaba por morrer de forma fulminante. É nessa altura que o Eu superior se manifesta.

A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela

vida, lábios cheios de palavras por dizer. O cabelo é branco e preto, usa vestidos com que sonhou na adolescência, a maior parte deles orientais. Os seus sapatos já pisaram muitos países distantes e traz um relógio que era do seu tio, de ouro, com uma corrente que o prende ao pescoço, uma corrente que prende o tempo ao corpo.

— Ridículo — diz o professor Borja. — Isso do budismo não passa de uma

superstição transmitida por um sujeito obeso de pernas cruzadas. O problema do Eu é medíocre. Fica bem a príncipes indianos com grandes lóbulos das orelhas, mas falta-lhes ciência. Vocês, pessoas de budismos e teosofias, interrogam-se sobre o que é o Eu. Fazem isso constantemente. Comprem uma televisão e vejam telenovelas, divirtam-se com qualquer outra coisa fútil, porque isso de andar a tentar compreender o Eu é uma palermice. E essa coisa incrível que pregam, o tal Eu superior, o que é realmente? Uma pessoa como a senhora não tem um Eu superior, tem, quando muito, um Eu com a mania que é superior.

— Não é assim, professor. É o problema mais profundo do Homem.

Descortinado, não resta nada. Nada, é o vazio. É o mahabindu: um vazio só alcançável pela meditação — intervém o hindu.

— Ridículo! — diz o professor. — E a verdade não vem embrulhada em hindi

mais do que em português. Meus senhores, esqueçam esse calão indiano e concentrem-se nos conteúdos. Este problema resume-se assim: como é que um homem não perde a sua identidade se perder um braço? Continua a ser ele. Se deixar de ser do seu clube de futebol e se deixar de ter por cor preferida o amarelo, continua a ser ele. Se alguém o caracterizar como uma pessoa inteligente e ele deixar de o ser, continua a ser ele. Se ficar paraplégico, continua a ser ele. Desmemoriado, também. Quando uma pessoa é criança, é ele; quando é velho, também é ele. Mesmo que entre essa criança e esse velho haja mais distância e menos semelhanças do que entre outras duas crianças ou entre dois velhos. E há o problema do barco de Teseu: enquanto ele navega, o barco vai perdendo peças que ele vai substituindo como pode. Ao ponto radical de, a certa altura, nenhuma das peças originais fazer parte do barco e de todo ele ser constituído por peças diferentes, novas, que não lhe pertenciam. No entanto, e apesar de nenhuma peça ser comum ao barco inicial, ele mantém o seu eu e toda a gente diria que estamos perante o barco de Teseu. Ou, pelo contrário, foi-se, evolou-se? Mas imagine-se que atrás deste barco vai outro a recolher as peças que o primeiro perde. Com essas peças constrói um barco de Teseu igual ao outro, igual ao que o outro era no início. Neste momento tem as peças originais, é mais parecido com o barco de Teseu do que o primeiro. Tudo isto gera um nó filosófico difícil de desatar. Onde está o Eu, o que é que o pode definir ou caracterizar?

— O budismo diz que a resposta é “mu”, que significa vazio. A natureza das

coisas é o vazio — explica Miss Whittemore.

O hindu aprova com a cabeça enquanto mastiga um pedaço de chourição. — Ridículo — repete o professor. — Eu, em nome da ciência, avatar das

verdades provadas em laboratório, dir-vos-ei o que é essa coisa infame do Eu. A descoberta é minha, somente minha, mas o que é que vale hoje uma descoberta? Nada. Há uns tempos, um homem podia subir um monte no Nepal e ficava na História. Levava com uma maçã e descobria a Lei da Gravidade. Tomava banho e gritava “Heureca”. Dormia uma sesta e inventava a lâmpada. Hoje em dia, malditos tempos sem futuros, um homem pode descobrir o Eu, que não passa de mais uma teoria que poderá, um dia, almejar o anonimato. Vou explicar-vos, por A mais B, o que é isso tão escorregadio que procuram e não encontram. O Eu não é vazio nenhum, isso não existe. O vazio é uma mentira budista. Mas, visto sem microscópios, o Eu é difícil de definir e tendemos, cada vez que pensamos nisso, a chegar a conclusão vazia, ao vazio, ao tal “mu”. Mas a resposta é simples: o Eu é o sistema imunitário. Se, por exemplo, se define o Eu como uma pessoa saudável, inteligente, boa, má, peluda, etc., pode perder-se isso tudo, fazendo operações plásticas no Brasil, cortando a cabeça, adoecendo, estupidificando, fazendo a depilação, enfim, mudando completamente. Contudo, continuará a existir o tal Eu. Mesmo que nos tornemos uma pessoa radicalmente diferente, alguma coisa parece manter a nossa identidade. Diriam os ilustres comensais aqui presentes, exceto o nigeriano, que já está a dormir e a ressonar, que o cimento que liga esta embrulhada e mantém o Eu apesar de todas as mudanças, mesmo as mais radicais, é aquilo a que uns charlatães chamam de essência e outros de Eu Superior. Um apreciador de Aristóteles, por outro lado, diria que é o telos, o desígnio das coisas, mas isso para mim é bruxaria, misticismo, tal como o vosso calão hindu. Está bem para vocês, sábios irracionais, mas não serve a verdade. O Eu é isto: é o sistema imunitário, é o código genético. Mantém-se sempre o mesmo por mais que se mude tudo o resto. Arranque-se um cabelo, arranque-se um braço, arranque-se os miolos, e continuamos a ser Eu porque continuamos a ter em todos os núcleos das nossas células o mesmo código, o nosso ADN. Enfie-se um bocado de carne estranha, um transplante, e o corpo tenderá a rejeitá-lo. O corpo, o sistema imunitário, sabe que esse pedaço de estranheza não faz parte do Eu, porque o código é outro. Isso é que é o Eu. O resto é budismo.

— Ha, ha, ha! — ri o sábio hindu, para mostrar confiança. — Não tem piada, caro brahmin, estamos aqui a construir tragédias. Essas

superstições asiáticas dizem, juntamente com teosofias e alquimias, que esse Eu superior é a essência. Que o resto é manifestação ilusória. E têm toda a razão, esses charlatães. A essência é uma bolinha pequenina, é o núcleo das células, tudo o resto é a manifestação das ordens que provêm dessa bolinha. Somos todos manifestações das ordens desse pontinho recheado de letras, do nosso próprio código genético. Diz o judaísmo que o inefável nome de Deus é composto por quatro letras. Que esse nome é um tabu, que é impronunciável. Digo-vos que eles têm razão, e que isto é ciência da mais profunda. As letras que compõem o nome de Deus são quatro: A, T, C, G. Adenina, timina, citosina e guanina. É isso que faz o nosso código, um código gigante, uma palavra tão grande que é impronunciável.

— Ha, ha, ha! — volta a rir o hindu.

— É no ácido desoxirribonucleico que devem procurar os vossos segredos. O

homem é que é um Deus e no centro do seu universo tem um ácido impronunciável que, na verdade, é a abreviatura de uma das palavras mais longas do mundo, o nosso próprio nome, um código feito com quatro blocos, quatro letras, e que nos define enquanto persona, que nos caracteriza o Eu. O nosso Deus abscôndito não passa de um ácido.

— Foi o que eu sempre disse — concorda Miss Whittemore. — Não fiz inúmeras

peregrinações na Índia só para fumar erva. Sou uma metassolipsista. Está tudo dentro de nós.

— Isso é conversa para impressionar os ignorantes. O meu amigo brahmin fique

sabendo que esta imitação de primata que nos paga um salário para debatermos estas coisas acredita que Berkeley é Deus. Digo isto literalmente. Já ouviu falar em Berkeley, caro indiano? Esse est percipi? Pois bem, Berkeley era um bispo irlandês que, grosso modo, dizia que tudo se passava na cabeça dele. Acreditava que o universo só existia dentro daqueles centímetros de caixa craniana.

— Faz todo o sentido. Vivemos todos dentro da cabeça do bispo — diz a inglesa. — Ridículo.

— Vou mais longe do que isso, professor Borja. Uso Berkeley como um símbolo.

Confesso que cheguei a ter um pequeno altar com uma imagem do filósofo, mas deixei-me dessas coisas: fui mais longe. É verdade que acredito que todo o universo está dentro da cabeça de Berkeley, mas também acredito que Berkeley está dentro da minha cabeça.

Miss Whittemore aponta para a sua própria testa franzida. — Portanto, Deus é a senhora, não é o bispo — diz o professor. — Nada disso. Todo o universo está dentro da cabeça de Berkeley. Berkeley

está dentro da minha cabeça. Mas também se deve acrescentar que eu estou a viver dentro da cabeça de Berkeley. Como todos nós. E todos vivemos dentro da cabeça uns dos outros que, por sua vez, vivem dentro da cabeça de Berkeley. O que está do lado de fora está cá dentro e o que está cá dentro está lá fora ao relento.

— Sim, sim, reconheço que as fronteiras se esbatem e que Aristóteles pode não

ter tido razão com a sua lógica racional, que esse é um conceito difícil, que o “fora” se intromete na definição de “dentro” e um não é sem o outro. Mas repare que aqui, no meu espaço interior, neste globo redondo que é a minha cabeça, a coisa é mais simples e maniqueísta: existe fora, existe dentro, e estão relativamente separados. E o meu Eu está confinado pelo meu sistema imunológico. Reconheço-me porque tudo no meu corpo tem a assinatura de um código específico que é o meu e o de mais ninguém, o meu ADN. Qualquer outra célula de outro corpo, rejeito-a, reconheço os enxertos como não me pertencendo. Para lá do sistema imunológico começa o que é exterior ao meu Eu.

— Isso são apenas leis que só existem na sua cabeça. E, por sua vez, a sua

cabeça existe dentro da minha. Que, por sua vez, vive dentro da sua.

— Ha, ha, ha! — ri o professor, para readquirir a sua confiança geométrica.

 

A conversa só acaba à noite, que está fria e nevoenta. O caseiro Rato apanha um cão a urinar contra o pneu da frente da sua carrinha. Pega-o pelo dorso, como uma mãe cadela pega nas suas crias, levanta-o acima da cabeça e atira-o contra o chão. O cão contorce-se, começa a ganir e a andar às voltas sobre si mesmo, até que se deixa cair inanimado, já Rato faz a curva ao fim da rua para estacionar em frente à casa da inglesa. O professor está nesse momento a sair, cheio de vinho e metassolipsismo. O caseiro insulta-o e diz que, se o apanha a pintar o muro, o mata. E o professor ri-se, uma gargalhada enorme que lhe sai das barbas de patriarca. Do outro lado da estrada está o sargento Oliveira, mas nenhum dos outros repara na sua presença, pois está no seu próprio carro, e não no da guarda, com as luzes apagadas. Pensa: hei-de apanhá-lo em flagrante, com a lata de tinta na mão, a pintar o muro da inglesa.

A noite está fria e nevoenta.