Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 64 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 65

Acorda com um sabor seco na boca amarga. Não compreende muito bem o que vê ao espelho, é como se fosse um diário econômico, indecifrável. O seu reflexo é sempre muito mais feio do que o original, julga ele. Os seus raros cabelos despenteiam-se ao longo da face, dando-lhe um ar de flor com pétalas murchas. Passa as mãos pelos olhos, esfrega-os, volta a olhar-se. Como é que uma pessoa tão bonita tem um reflexo tão feio?, pergunta o professor a si mesmo.

O café cheira a África ou a Timor, e ele bebe-o com calma, ensimesmado nas

suas tentativas de ideias. Acha que teve uma ou outra e levanta-se com lentidão. Aproxima-se da janela e, com toda a nostalgia que consegue reunir no meio da ressaca em que está, olha para o infinito, que é um lugar que vive encostado ao lado de fora das janelas.

Vai até ao quarto de Antónia e Rosa para as levar a visitar as maravilhas de

Jerusalém e arredores. Rosa empurra a cadeira e começam por passear na aldeia. Caminham um pouco pela periferia e depois pelos campos. Atravessam todos os lugares que o professor recorda da Bíblia. Sobem a um montículo e Borja diz que estão em cima do Ararat, onde a Arca de Noé atracou. Justifica a falta de altura com um problema de erosão. Aponta depois para uma barragem: o mar Morto! Antónia vai de boca aberta, empurrada por Rosa. O calor é difícil de suportar.

Nunca deixamos de ser macacos, pensa o professor Borja, o que aconteceu foi

que o macaco afundou para dentro de nós e agora vive cá dentro, a fazer caretas, macacadas, peludo, com os tomates azuis. Temos de impedir este naufrágio, destes macacos todos que se afogam dentro de nós. Pois é isso um homem: uma série de macacos a afogarem-se. Mas havemos de nos vingar. Antónia olha para ele e Borja sente-se na obrigação de criar Jerusalém com palavras, pois é assim que se cria a matéria:

— Em relação às pirâmides, que não se veem daqui, os egípcios apenas

pretendiam ficar na história por criar uma estupidez tão grande como a pirâmide de Quéops. Imaginaram que haveria gerações e gerações a interrogar-se e a formular as mais intricadas teorias sobre um assunto tão ingenuamente piramidal. Os egípcios eram geniais. Mas isso quase não se vê, pois há demasiada umidade. De resto, ninguém quer ver mistérios cuja resolução é o próprio mistério.

Ao dobrar uma esquina, Borja aponta para uma casa que outrora ficava a uns

duzentos metros. Diz:

— Ali viveu o violinista judeu que dava de comer ao violino. Punha uma taça de

leite, todas as noites, junto ao instrumento, como se este fosse um gato. Dizem que não havia quem não chorasse ao ouvi-lo tocar, mesmo os mais brutos e insensíveis, inclusivamente uma delegação das Nações Unidas. Em baixo vivia Ibrahim, um beduíno do Sudão que fazia anéis de prata e de cobre decorados com motivos geométricos que dizem conter a explicação para a existência do mal e para a entropia. Jerusalém sempre foi um mundo feito de inúmeros mundos, — uma história de dois gêmeos que nunca se encontram, pois quando um está acordado o outro está a dormir. E se alguém, de repente, acordar um deles, o outro adormece como se desmaiasse. A vida de um é o sonho do outro e vice-versa. O mais curioso é que estes gêmeos existiram mesmo, viviam a uns quilômetros daqui, em Belém, no mesmo lugar onde Cristo nasceu. Um dos gêmeos era muçulmano e o outro era judeu. Morreram os dois ao mesmo tempo, um acordado e o outro a dormir. Isto acontece, diz uma lenda cristã, porque certas vezes dois corpos podem ter apenas uma alma, da mesma maneira que um só corpo pode ter várias almas. Tal como um rico pode ter inúmeras propriedades, enquanto um pobre terá de dividir o pouco que tem com outros pobres iguais a ele.

A seguir, o professor aponta para um descampado pontuado por umas pedras de

alguma antiga construção:

— Foi aqui, neste terreno vazio onde outrora existiu uma mansão ao estilo

europeu, que morreu o cristão copta Abanoub Moussa, que foi o último proprietário da Pulga de Deus. Parece que, entre todas as relíquias, esta seria a mais perigosa, pois a Pulga encontrada nas vestes de Cristo alegadamente continha o seu sangue. A Pulga foi preservada durante séculos, praticamente até aos nossos dias, passando pelas mãos dos valentinianos, depois dos bogomilos, depois dos valdenses, depois dos Bórgia, depois dos Orsini, depois de uma seita romântica devota do Santo Guilherme Blake. Pertenceu, posteriormente, a um governante da Sublime Porta antes de ser adquirida pelo próprio Sultão Mehmed Murad V, que governou apenas noventa e três dias. O rasto da Pulga perdeu-se até à queda do Império Otomano, quando reapareceu em Jerusalém como propriedade de um abastado comerciante copta. No princípio do século XX, outro cristão, irracionalmente católico, resolveu adquirir a Pulga de Deus usando argumentos bélicos. A casa de Abanoub Moussa acabou em chamas com ele lá dentro e com a Pulga de Deus fechada no cofre do salão.

A minha avó não ouviu nada, pensa Rosa.

Então deparam-se com uma fonte, com todas as características alentejanas,

mas sem se desmascarar o professor discursa:

— A fonte que se diz ter dado aos homens a capacidade de ver aquilo que não

acontece no futuro. Por mais que imaginemos o que irá suceder, o futuro nunca acontece como pensamos. Mesmo que apenas difira num pequeno pormenor. Adão bebeu desta fonte e passou esta característica aos homens, fato que veio a tornar a nossa vida muito mais interessante e misteriosa. Curiosamente, as coisas que imaginamos que irão ser o futuro, e jamais o serão, existem mesmo, mas num universo ao lado deste, coladinho a este. Deus fez muitos, como folhas de um livro, e não desperdiça imaginação nenhuma e tudo o que pensamos acaba por acontecer, mas noutro lado a que não temos acesso. Somos como aquelas pessoas que encontram uma porta, julgando ser a saída, que diz: proibida a entrada a estranhos.

 

Almoçam em casa da inglesa. Rosa diz que está cansada e, mal termina a refeição, empurra a cadeira da avó e vão as duas para o quarto. Passado pouco tempo, ouve bater à porta. O professor diz-lhe para deixar Antónia a dormir:

— Vamos para o meu quarto.

Rosa diz que não, mas o professor insiste. Puxa-a pela mão e leva-a para o

quarto. Ele deita-se na cama e ela fica em pé, com as mãos juntas, caídas à frente do corpo. Ele manda-a sentar-se ao lado dele e ela obedece.

— Vivo sozinho — diz o professor Borja. — Às vezes vivo tão sozinho que nem

me apetece chorar. Fico seco da solidão.

Rosa deixa que ele a abrace, mas faz uma careta. Rapidamente, o abraço torna-

se outra coisa e já estão os dois despidos.

— Sou um Heróstrato — diz o professor.

— Quem?

— Um Heróstrato. Aquele que deitou fogo ao templo de Diana, uma das sete

maravilhas da Antiguidade.

Rosa revira os olhos.

— Far-te-ei arder esse templo de Artemisa. — Não era Diana?

— São a mesma deusa, Rosa. Uma romana, outra grega, mas nos céus lá de

cima são o mesmo arquétipo. Os arquétipos não percebem nada de geografia, para eles Roma e Atenas sobrepõem-se como um mapa dobrado. Como esta Jerusalém sobre o Alentejo.

— ...

— Rosa, Rosa...

— Professor...

— Heróstrato, chama-me Heróstrato.

— Heróstrato, Heróstotro... Hetós...

— Heróstrato.

 

No início da sua relação, algum tempo depois de o professor lhe ter oferecido o anel, Rosa perguntou-lhe:

— Ama-me, professor?

— Só posso amar a ciência, a matemática. O meu coração só tem espaço para

a exatidão — respondeu ele, porque achou charmoso colocá-la em segundo plano.

Rosa ficou maravilhada. Aquele homem só ama a ciência. Existe coisa mais

bonita? E soltou uma lágrima. Agora, não percebe como foi capaz de se ter, sequer, comovido.