Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 50
O professor leva Rosa até ao monte. Estaciona à porta, junto a outro carro.
— É do padre — diz Rosa.
— Vou-me embora. É melhor não aparecer. Rosa concorda e entra em casa. O padre está sentado ao lado da avó, agarra-
lhe as mãos.
— Rosa, que bom que chegaste. Estava neste momento a falar de ti. Há tantas
coisas que me preocupam.
Ela baixa a cabeça e olha para os pés. Os sapatos são velhos e ela detesta
coisas velhas, apesar de viver rodeada delas. Também detesta ir às compras e mesmo que gostasse não teria dinheiro. E também acha que Deus se esconde de todos, mas evita, acima de tudo, os padres. Sente que as palavras do sacerdote são como as mãos da sua mãe, de porcelana, frias e duras. Parece que batem palmas, mas afinal estão a rezar.
— A tua amizade com o pastor é muito pouco católica. Tal como com esse
velho, com o professor.
Os sapatos não estão engraxados, ainda por cima estão cheios de poeira e
lama. A lama é muito difícil de tirar porque é autêntico barro e fica entranhada nas solas, misturada com as ervas. É preciso deixar secar, deixar os sapatos ao sol, como as lagartixas. O sol é muito higiênico e o calor é mais eficaz do que a água.
— Ando muito preocupado contigo, Rosa.
Os sapatos estão cheios de pó porque são os mais sacrificados. Fazemos tudo
em cima deles. São como os mortos e as memórias e o passado. É tudo feito em cima deles, como se fossem um degrau.
Rosa levanta a cabeça e o padre observa-lhe o rosto, as sobrancelhas grossas,
os lábios gordos com o seu ligeiro buço.
— Uma mulher não é adulta só porque já tem bigode. Tens de ouvir os meus
conselhos com atenção. A única terra que vale a pena plantar é a cabeça das pessoas. O resto são apenas olivais. Eu também costumo passear junto ao rio e sei muito bem que plantas crescem nas margens. Faço-me entender?