Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 26
O professor Borja fica a vê-las entrar na igreja. O carrinho de mão é deixado à porta e uma mulher ajuda Rosa a levar a avó para dentro do templo. O professor olha em volta e entra num edifício de três andares, de turismo rural. Pede para usar o telefone e liga para um amigo que o pode ajudar com o carro e, quem sabe, com o javali. Sobe até ao bar e senta-se na varanda, que dá para uma paisagem enorme, a ver o Alentejo derramar-se pelo horizonte, como o vinho num copo. Há sobreiros até ao céu e o ar está cheio de insetos. Ao fundo ouve-se um blues e ainda mais ao fundo, na paisagem, vê-se uma barragem. Manda vir um copo de vinho, um queijo seco de ovelha e pão. O vinho é tão artesanal que as uvas foram pisadas à mão.
Depois, acende um cigarro e fica a olhar a paisagem, que se estende, toda
deitada, até Espanha. Semicerra os olhos por causa da luz ou por causa do fumo, ou talvez por melancolia. Sabe trautear a música que está a tocar ao fundo. É música para pessoas sentadas, que gostam de vinhos pisados à mão.
Procura umas moedas para deixar em cima da mesa antes de se ir embora,
pois ouve o burburinho do fim da missa.
Fartaria leva Rosa e a avó na sua carrinha. Antónia vai no banco da frente, com
a cabeça a pender para o lado, enquanto Rosa vai na parte de trás, na caixa de carga juntamente com o carrinho de mão. O professor vê-as sair, repara no perfil de Rosa e sente alguma coisa estranha, tem vontade de ir com elas, de as seguir para sempre.
O padre é o último a sair e o professor decide falar com ele. — Não costumo vir aqui, porque sempre vivi no concelho limítrofe. Conheço mal
a vila...
— Isso sei eu — diz o padre Teves.
— Quando a inglesa comprou uma aldeia que fica... — Sei onde fica.
— Contratou-me, pois tem lá uns religiosos... — Mas não são padres, pois não?
— Nem por isso: um feiticeiro nigeriano e um gim-nosofista indiano. Eu sou a
contraparte da ciência. Ela quer um pouco de bom senso na conversa.
— Não há padres nessa conversa?
— Não.
— É pena. Sabemos mais. E o que é que faz por aqui? A missa já acabou... — Atropelei um javali.
— Há muitos de manhã e ao fim do dia. É preciso conduzir com cuidado,
devagar.
— Depois do acidente, encontrei uma menina que trazia a avó para a missa
dentro de um carrinho de mão.
— Ah, a Rosa. Uma boa rapariga, apesar de ter tendência para a heresia. Já lhe
dei umas boas palmadas por causa disso. De resto, sei bem onde vai parar. Tem uma figura demasiado sedutora para a idade, não deixa nenhum homem indiferente. Duas pernas, um sinal entre as duas mamas recém-nascidas, a esquerda e a direita, e até um buço. É peluda, com carnes que enchem muitos olhos. O rabo dela, que Deus o tenha e conserve, é o único motivo pelo qual haverá a ressurreição da carne, per carnem, como gostava de dizer Tertuliano, um padre inteligente apesar de se ter tornado montanista. Mas voltando à Rosa e às suas partes posteriores, aquelas mais traiçoeiras que nos atacam pelas costas, ou seja o rabo, seria um desperdício incalculável, um absurdo para a Criação, se aquele traseiro pálido, que é a suma da perfeição divina, se perdesse com a morte e se confundisse com a terra. É preciso ressuscitá-lo per carnem para que viva pela eternidade com a sua pelezinha rosada e com a marca do biquíni, que eu nunca vi, meu jovem, nunca vi.
— Eu tenho setenta e sete anos.
— É um jovem. Até digo mais, quando falamos de coisas eternas somos todos
nascituros. Adiante: repare como um rabo nos pode fazer crer na ressurreição, mais do que as epístolas de S. Paulo. Só temos um cu protuberante porque nos erguemos das quatro patas para a verticalidade e nos tornamos este macaco sem pelos, de rabo saliente e nádegas hemisféricas. Sem essa ereção da postura, se não andássemos com apenas duas patas, não libertaríamos as mãos, não haveria polegar oponível, não haveria necessidade de um cérebro maior. Ganhamos um traseiro espetado, capaz de nos aguentar em pé, com músculos suficientes, uns fortes glúteos, e ganhamos esses acrescentos rotundos, profundamente curvos, arquetípicos, nádegas capazes de aguentar o esforço epopeico de nos erguermos na vertical sem vacilar sob o peso do céu. Os macacos não têm traseiros como os nossos, redondos como os nossos, e o da Rosa, que é o mais redondo de todos. Nós só temos um cérebro capaz de pensar na lógica de Aristóteles e na teologia de Tomás de Aquino porque temos umas nalgas extrovertidas. Estão ligados o cima e o baixo numa trama impossível de desenvencilhar. Cabeça e rabo são duas faces do mesmo Deus, do Único. Acaba-se com o traseiro e vai-se o pensamento mais piedoso. Fui suficientemente científico para si?
— E os pais dela?
— Foram-se.
— Morreram?
— Um deles, sim, debaixo de uma alfaia agrícola, completamente bêbedo. Era
um homem violento que desafiava toda a gente, mas a vida correu-lhe mal. E a mãe da Rosa foi-se, que é como se tivesse morrido. A morte, meu amigo, é uma curva na estrada, é o lugar mais distante, onde não há correios nem telefone. As pessoas, quando se afastam, ficam como a paisagem, como os arbustos, ou como uma vaca a pastar. A mãe da Rosa apartou-se da nossa visão, da visão e dos olhos de quem a amava. Não é isso morrer? A ausência e a morte são familiares chegados. Ela foi para Lisboa crescer ou minguar, como faz a lua. Sobre este veredito só Deus, ou o tempo, fará juízo. Repare o senhor que estar ausente tem, na prática, o mesmo efeito de estar enterrado e bem morto. Não para a própria pessoa, bem entendido, mas para os outros: é uma completa falta de nexo. Esperamos reencontrar essa pessoa, mas o reencontro em que todos temos esperança é o mesmo sentimento que nós, cristãos, sentimos tendo fé na Ressurreição. Mas se esse reencontro não se der em vida, não é precisamente o mesmo, exatamente o mesmo, que uma ausência?
— Mas falava de pelos...
— Na menina Rosa — responde o padre —, os pelos crescem sem lei nem
ordem, despontam da pele mais inocente e marcam-na com um padrão dos diabos, com aquelas sobrancelhas grossas que são umas autoestradas e aqueles tornozelos hirsutos.
— Dito assim, parece que está a falar de um urso. — Nada disso, caro amigo, é tudo muito tentador. — Parece-me que olha com mais tenacidade do que seria de esperar num
homem de Deus.
— Aprecio as obras da Criação. Nisso sou imparcial e santo ao ponto de as admirar em qualquer lugar. A Rosa não é menos criação só por ser uma tricana com cheiro a queijo de ovelha.
— Não sou grande adepto dessa pilosidade. — Não sabe do que fala, meu jovem amigo. — Tenho mais de setenta anos.
— Não vamos ter essa conversa outra vez. — Prossiga...
— Eu, que entreguei a minha sexualidade ao Divino e me casei com os Céus, é
que lhe vou explicar: os homens são ilhas, tal como se diz. São um sexo cercado de pelos por todos os lados. Os pelos são as nossas pétalas. Emolduram-nos, do mesmo modo que as pétalas emolduram o sexo da flor. E o senhor responda-me: quando olha para uma flor repara no sexo dela ou nas pétalas que exibe? Não responda, eu respondo por si. Olha para as pétalas, que estão para as flores como os pelos estão para a pudenda.
— Reitero que não me fascinam os pelos. Olho mais para a cara do que para os
cabelos.
— Já não sei o que lhe hei-de dizer mais. É difícil fazer os jovens compreender.
É evidente que olha para a cara, mas os cabelos, jovem, são, como diz o povo (e esse povo por vezes tem razão, exceto nas urnas, aí nunca acerta), a moldura do rosto. Embelezam a cara do mesmo modo que embelezam o resto. Faço-me entender? Como as pétalas, como as flores. Olhe para a natureza, olhe para a sociedade, verá que está tudo emoldurado com pelos. Roupas, penas, pétalas, escamas coloridas, joias, frutos: tudo pelos.
— Exagera. É apenas uma questão de gosto. É subjetivo, relativo, vai de cada
um.
— Não há subjetividade nenhuma por aqui. Isto é uma verdade espiritual. — Mesmo assim.
— Uma verdade espiritual, ouça o que lhe digo! E agora, se me permite, vou
jogar pôquer de dados com o sacristão e o Banha, que vende armas de caça. Quer fazer-nos companhia?
— Eu não jogo aos dados. Deus é que joga.