Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 54
O professor ainda está muito maltratado, apesar de já ter passado uma semana desde o incidente com Ari. Tem menos dentes, tem menos confiança, tem um penso nas costelas, outro no nariz. Rosa tenta amenizar os estragos, mas não tem jeito para o fazer.
— Tenho pena. O Ari é um tonto.
— Já me sinto melhor.
Rosa levanta-se para ir buscar-lhe um copo de água. — O meu sonho era viver num monte e construir uma igreja abandonada — diz
o professor Borja.
— Uma igreja abandonada?
— Sim. Por ser uma bela paisagem e por nos dizer que podemos abandonar a
religião. Deixar crescer ervas no meio das orações é a melhor paisagem.
Rosa agarra os joelhos e olha para ele sentindo que há qualquer coisa errada
naquela pessoa. Lembra-se de ter visto um dia um veado a morrer. Na quinta de um amigo do seu pai criavam-se veados. Davam-lhes milho junto a uma vedação de arame porque o que crescia no terreno não era suficiente para a sua alimentação. O homem, de vez em quando, pedia a João Lucas Marcos Mateus que o ajudasse a abater alguns dos seus veados. Numa dessas vezes, Rosa acompanhou o pai que a levava pela mão. Rosa gostava de caminhar assim, ao seu lado. O pai, na outra mão levava a espingarda e aquele era um contraste estranho, mas notavelmente humano: numa mão, uma criança, na outra uma arma. Mal o amigo de João Lucas Marcos Mateus atirou milho aos veados, estes correram para o comer. Quando o primeiro se aproximou, o pai de Rosa fez pontaria e uma fêmea caiu no chão de cimento no meio de uma poça de sangue. E enquanto estava assim, ferida de morte, comia o milho que estava ao alcance da sua língua, esticava-se e ainda mastigava. Mesmo a morrer profundamente, a esvair-se em sangue, a sua língua procurava o milho. Rosa sentiu aquilo como uma grande confusão: a natureza não sabe bem o que anda a fazer e por vezes troca tudo. O professor também é assim. Rosa vê-o desse modo desde que o viu encolhido debaixo dos pontapés de Ari. Houve muita coisa que mudou com aqueles pontapés, não foram só as costelas e os dentes do professor. Toda a relação, da parte dela, sofreu a mesma violência, perdeu dentes, magoou-se no nariz, ficou com um penso nas costelas.
Rosa, que a princípio andava receosa e ao mesmo tempo feliz, foi-se aligeirando
e retomando a banalidade dos dias. Aos poucos, enquanto a euforia se dissipa (também aos poucos, a passinhos cautelosos), ela começa a sentir algum desconforto quando abraça Borja. A relação deles é como colocar um segundo ao lado de um século. Na rua julgam-na neta do professor. Também começa a sentir, vindo dele, um certo cheiro a urina, fruto das virilhas brancas. Sente, talvez, um sutil olor a caixão, a mortos, a sótão e a lixívia amoniacal. Borja não nota estas pequenas sutilezas no espírito de Rosa. Continua a ser o mesmo ser vivo apaixonado. Um ser vivo como tantos outros mortos.
Em público e privado, o professor, embriagado com a vida, cita Nicolau de Cusa
sempre que pode. Acredita que o filósofo pode trazer-lhe benefícios sexuais, como aconteceu com Rebeca, aluna do seu amigo Rodolfo, que esfregou os pés no seu sexo intumescido. O professor Borja não vê uma circunferência sem que acuse um círculo infinito de ser uma reta. E quando se deita com a sua velhice em cima de Rosa, não para de falar no cardeal alemão. Nicolau de Cusa está sempre com eles, é o terceiro vértice do triângulo — porque todas as relações são triangulares, mesmo as mais quadradas.