Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 21 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 20

Os dias sucedem-se iguais, uns atrás dos outros, e a rotina infiltra-se na carne como música nas orelhas. O Verão deixa entrar o Outono na sua casa; e este, o Inverno; e a diplomacia das estações sucede-se.

Rosa corre pela chuva e chega à casa de Santos & Santos. Com a roupa

molhada, tira, com alguma dificuldade, as chaves de uma mala demasiado cheia e abre a porta da rua. Fecha o guarda-chuva, sacode-o e encosta-o à parede, e depois tira o lenço que traz na cabeça e sacode o cabelo como fazem os cães molhados. Passa os sapatos pelo tapete e dirige-se à cozinha, mas para porque ouve um grito. Vira-se, avermelhada, pois aquela voz é terrível. Dona Clotilde é responsável por todas as empregadas da casa. Cita filósofos alemães enquanto aspira. Gosta de Kant, apesar de dizer: aquilo não era um filósofo, era um relógio. Uma pessoa pode saber que horas são só por pensar como ele. Rosa ouve-a com paciência, engole os seus gritos de desespero pelo corredor que, acabado de limpar, está novamente sujo, com lama. No meio dos gritos ouve citações de Heidegger e até já sabe uma ou outra frase de Ser e Tempo e outras higienes. Dona Clotilde enviuvou ainda relativamente nova, não tinha mais de quarenta anos, mas deixou-se entristecer eternamente sem outro consolo que não a limpeza do mundo. Tem propriedades em Lisboa e não precisa de trabalhar, mas vê a limpeza como uma missão: quer limpar o mundo. E não há nada melhor do que o chão, pois é aí que o mundo começa. No fundo, dona Clotilde sente-se um símbolo, alguém que limpa a parte mais baixa de todas, aquilo que está ainda mais baixo do que os nossos pés, limpa aquilo que pisamos.

A lama é uma ofensa tremenda à civilização, e o caráter de dona Clotilde

jamais permitiria a barbárie espalhada pelos patamares de mármore e corrimãos e flores de plástico. São milhares de anos de sociedades sedentárias, para depois andarmos a pisar toda a nossa História com sapatos sujos. Rosa suspira e recua para a entrada para voltar a limpar os pés, mas isso ainda irrita mais dona Clotilde. Está a fazer pior ao chão, na perspectiva de poupar o resto do corredor. O raciocínio pode ser correto, mas ver aquele espaço da entrada a encher-se de sujidade é algo que dona Clotilde é incapaz de tolerar. A sua cara ruboriza-se e chega a levantar a mão, um gesto de que prontamente se arrepende. Por isso disfarça e transforma o seu movimento numa palmadinha nas costas de Rosa.

— Muito bem — diz ela. — Não custa limpar os pés como deve ser, pois não?