Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 45
— Queres acasalar? — pergunta Ari.
Rosa acha que “acasalar” é uma palavra esquisita. — Isso é por trás?
— Como é que preferes?
Rosa não sabe responder e diz:
— Gosto quando está sol.
46
“As árvores que caíram na Primavera ainda se ouvem no Outono”, disse Harold Estefania, querendo dizer que as nossas dores nos acompanham até morrermos, como cães fiéis atrás dos donos. E, quando olhamos para baixo, vemos esses cães horríveis que nunca nos abandonam, que nos são leais até à morte. O professor também caminha com os seus cães e Rosa também e Antónia também. Como toda a gente. E Harold Estefania disse ainda, A morte não ouve o pianista, capítulo quatro: “Quando um homem cai, ouve-se para sempre.”
A junta de freguesia é uma casa igual às outras, mas com muita coisa de
alumínio e ventoinhas no teto e um computador cinzento, com um monitor de rabo comprido como os babuínos. Rosa senta-se à espera de ser recebida pelo presidente da Junta, um homem alto e careca a quem chamam Três Metros porque é a distância a que todos se mantêm dele por causa do hálito.
Uma porta abre-se e o presidente aparece com um sorriso, manda-a entrar. Rosa senta-se numa cadeira velha que contrasta com aquela em que se senta
Três Metros, que é de madeira da Amazônia, clara como pinho. Rosa afasta um pouco a sua cadeira para cumprir a quota de afastamento e explica-lhe o plano do professor, de transformar uma aldeia em Jerusalém. Precisam de ajuda para pintar uns cartazes, para esconder outros. O presidente ri-se, acha um absurdo, acabando por discursar como se estivesse em campanha. Rosa faz um esforço enorme para tomar atenção, mas sente os olhos a ficarem esquisitos e começa a piscá-los demasiado. Os seus pensamentos andam de um lado para o outro com a voz do Três Metros como pano de fundo. Coça os olhos e pensa, enquanto olha para o presidente da Junta: têm línguas que são pijamas, servem para dormir. Rosa levanta a cabeça num esforço de concentração, repara nos cabelos grisalhos do Três Metros e acha-os tristes, encaracolados, meio mortos. Volta a tentar concentrar-se e ouve a última frase do discurso:
— Claro, Rosa. Já sabes: se precisares de alguma coisa, pede a outra pessoa
qualquer.
Rosa sai dali irritada e põe as mãos na boca para abafar um grito e alguns
insultos.
Para uns metros à frente, na mesma rua, e fica ali uns segundos a olhar para
uma montra. Há roupas de criança e telefones à venda. Também há cosméticos e uma viola campaniça, há muita coisa chinesa e brindes. Uma moeda pode dar um canivete, uma carteira, um isqueiro ou, na melhor das hipóteses, um telefone. Rosa abaixa-se, devagar, deixando que a saia trepe pelo corpo e exiba a parte de trás dos joelhos. Apanha uma pedra de basalto, um paralelepípedo que atira contra a montra e começa, de seguida, a correr. A rua está deserta e ninguém a vê, agarrada às saias, a correr pela rua fora, com um sorriso na cara. Sente-se feliz outra vez, apesar de aquela montra não ter culpa nenhuma da sua irritação.
Ao dobrar uma esquina, Rosa torce o pé. O tornozelo começa a inchar
imediatamente e ela deixa de conseguir andar. Um homem ajuda-a. Traz um casaco de fazenda, apesar de estar calor. A sua pele é baça e amarela e desprende um odor a gasto. Tem uma barba escura e a sua mão esquerda está muito perto do peito de Rosa, do seu lado esquerdo. À medida que avançam ele vai aproximando a mão e, quinze metros depois, agarra-lhe ostensivamente no peito. Rosa sente vontade de gritar, mas apenas deita uma lágrima. O coração dela bate nervosamente, descompassado. Se pudesse morder, fá-lo-ia e a mão do desconhecido seria arrancada. Mas um coração não pode fazer outra coisa senão ladrar.
O candeeiro dá uma luz demasiado tênue e inunda a pele de Rosa com umas sombras que parecem manchas, como uma doença. Ela coça a coxa, estendida no sofá. Ajeita o saco de gelo embrulhado num pano de cozinha e aproxima-o do tornozelo inchado.
— Já não adianta usar gelo — diz-lhe a avó. — Já inchou tudo e vai demorar
muito tempo a passar. Também já me aconteceu — diz, enquanto passa as contas do rosário pelos dedos.
Rosa nunca se sente única. Isso nunca lhe acontece na vida. Todos os seus
momentos são minimizados com um “isso também já me aconteceu”. A vida de Rosa é partilhada por todos e não tem nada de único. Todos os seres humanos são únicos, menos Rosa. Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade.
O professor chega ao monte com a camisa suada, meio aberta, as mangas
arregaçadas e o casaco no braço. Respira com dificuldade quando bate à porta.
— Está encostada — diz Rosa lá de dentro. A avó está na cama e pergunta do quarto:
— Quem é?
— É o professor — diz Rosa.
— Quem é? — repete ela.
Rosa grita em direção à porta do quarto com as mãos na boca: — É O PROFESSOR! O PROFESSOR!
O professor senta-se ao lado de Rosa. Pergunta-lhe o que foi aquilo, se não é
melhor ir ao hospital. Rosa diz que não é nada e o professor ajoelha-se e pega-lhe no pé para observar o inchaço no tornozelo. Ao pegar-lhe no pé, os seus olhos erram pelas coxas de Rosa.
— É melhor ir ao hospital.
— Isto passa.
O professor ainda segura no pé e tenta perceber se não haverá nada partido.
Levanta-lhe um pouco mais a perna, vira-a para a esquerda e para a direita.
— Não é nada — diz ela.
O professor senta-se e diz-lhe que está tudo encaminhado, Jerusalém está aí ao
virar da esquina. Já tem tudo acertado com a inglesa, já tem comprimidos para fazer dormir cavalos, há avião disponível, roupas para disfarçar as pessoas, a famosa ordem macedônia cujos membros leem poesia completamente despidos e acabam sempre presos, e uma companhia de teatro para fazer uma encenação da última ceia.
— Em que se beberá cerveja em vez de vinho. — Como assim?
— Jesus Cristo bebia cerveja.