Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 21
Antes de sair do trabalho, Rosa ajeita as meias, mostrando uns joelhos brancos, ossudos como são os das crianças. Santos & Santos dá-lhe uma palmada no rabo enquanto ajeita os anéis dourados.
— És uma boa rapariga — diz-lhe ele. E volta a ajeitar os anéis. Rosa não é alta. Tem duas mamas firmes, acabadas de nascer, e um sinal
entre elas, colocado por Deus que, deslumbrado com a beleza da rapariga, deixou cair uma gota de tinta, da mesma tinta com que Ele escreve toda a Criação e assina, como jurista, as faturas dos nossos destinos.
Ouve muitos elogios dos rapazes na rua e isso agrada-lhe. O senhor Santos &
Santos diz-lhe com frequência:
— A menina é muito bonita.
Rosa ouve isso assiduamente, não apenas de Santos & Santos, por isso mostra
um sorriso maquinal ao patrão que, nesse instante, mexe o café com o indicador e depois limpa-o com um lenço aos quadrados. Tal qual como eu limpo as pratas, pensa ela.
Nessa noite, Santos & Santos entra no quarto de Rosa e Matilde, como faz a
espaços, e para entre as camas das duas raparigas. Inclina-se sobre Rosa e sussurra uma pergunta aos ouvidos dela: estás acordada? Rosa finge estar a dormir e Santos & Santos tenta meter a mão esquerda por baixo dos lençóis, mas vê-se atrapalhado, pois estão muito bem entalados. Matilde chama-o, puxa-o pelo pijama e ele deita-se com ela. Estava a ver se ela estava a dormir, justifica-se. E a cama começa a bater contra a parede, contra a parede, contra a parede.
Nenhum dos três percebe que há mais uma pessoa a ouvir a cama a bater na
parede. A mulher de Santos & Santos despega a cabeça da porta do quarto das empregadas e vai deitar-se.