Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 22 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 21

Antes de sair do trabalho, Rosa ajeita as meias, mostrando uns joelhos brancos, ossudos como são os das crianças. Santos & Santos dá-lhe uma palmada no rabo enquanto ajeita os anéis dourados.

— És uma boa rapariga — diz-lhe ele. E volta a ajeitar os anéis. Rosa não é alta. Tem duas mamas firmes, acabadas de nascer, e um sinal

entre elas, colocado por Deus que, deslumbrado com a beleza da rapariga, deixou cair uma gota de tinta, da mesma tinta com que Ele escreve toda a Criação e assina, como jurista, as faturas dos nossos destinos.

Ouve muitos elogios dos rapazes na rua e isso agrada-lhe. O senhor Santos &

Santos diz-lhe com frequência:

— A menina é muito bonita.

Rosa ouve isso assiduamente, não apenas de Santos & Santos, por isso mostra

um sorriso maquinal ao patrão que, nesse instante, mexe o café com o indicador e depois limpa-o com um lenço aos quadrados. Tal qual como eu limpo as pratas, pensa ela.

Nessa noite, Santos & Santos entra no quarto de Rosa e Matilde, como faz a

espaços, e para entre as camas das duas raparigas. Inclina-se sobre Rosa e sussurra uma pergunta aos ouvidos dela: estás acordada? Rosa finge estar a dormir e Santos & Santos tenta meter a mão esquerda por baixo dos lençóis, mas vê-se atrapalhado, pois estão muito bem entalados. Matilde chama-o, puxa-o pelo pijama e ele deita-se com ela. Estava a ver se ela estava a dormir, justifica-se. E a cama começa a bater contra a parede, contra a parede, contra a parede.

Nenhum dos três percebe que há mais uma pessoa a ouvir a cama a bater na

parede. A mulher de Santos & Santos despega a cabeça da porta do quarto das empregadas e vai deitar-se.