Jesus Cristo Bebia Cerveja

Afonso Cruz · Capítulo 66 de 73

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Jesus Cristo Bebia Cerveja

Capítulo 67

Quando acabam de jantar, Borja fica na mesa a olhar para o modo como Rosa se mexe para longe dele com as duas pernas e os cabelos negros como a cegueira absoluta. Bonita, pensa ele e não nota que, apesar de estar muito próximo dela, ela está muito longe dele. Funciona assim a distância entre as pessoas. De um lado é perto, do outro é longe. Mesmo quando Borja se deita em cima de Rosa, esta relação das distâncias mantém-se. Ele penetra-a com o seu pênis antiquado e, todavia, apesar de estar dentro dela, está muito longe. O professor Borja tira um charuto do bolso e acende-o com a claridade de um fósforo.

 

Ana Maria, a criada de Miss Whittemore, prepara a infusão que a patroa costuma beber ao deitar: de jasmim importado com uma gota de leite de burra e outra de porca. O professor entra na cozinha e pergunta se há sais de frutos, pois ficou com o estômago embrulhado do jantar. Ana Maria olha para ele, virando a cabeça muito lentamente. Sai da cozinha para ir à despensa buscar o frasco de sais. A infusão que Ana Maria prepara está em cima da bancada, numa bandeja de prata, oval, decorada com folhas de videira. O professor tira uma caixinha, abre-a e atira o seu conteúdo para dentro da infusão de jasmim importado de Singapura. O pó branco dissolve-se imediatamente, encontrando o seu caminho por entre a gota de leite de burra e a gota de leite de porca. Deve ser suficiente para fazer adormecer um cavalo, pensa o professor. Ana Maria volta com o frasco de sais de frutos e pousa-o na mesa da cozinha, tira um copo do armário, e diz que a água está na bilha. O professor serve-se, junta os sais, e fica a vê-los borbulhar. Bebe de um trago enquanto Ana Maria sai com a bandeja para a levar à patroa.

De volta ao seu quarto, o professor deita-se de costas na cama, sentindo-se

bem, sorrindo para o teto com as mãos atrás da cabeça. Espera por Alípio, que chega passados minutos. Vem nervoso, mas o professor não sabe notar essas coisas, está concentrado em si mesmo, nas suas ideias, no seu plano para essa noite. Alípio pousa a lata de tinta no chão e tira um pincel do bolso do casaco. O professor sorri, dá-lhe umas palmadas nas costas.

— Ficas aqui um bocadinho, como combinamos? — pergunta o professor a

Alípio. — Uma hora deve chegar até eu voltar. Deves andar de um lado para o outro para que te vejam de lá de fora. Estás mesmo parecido comigo, com essas barbas postiças. Dás uma boa silhueta e um álibi perfeito.

Alípio está nervoso, sentado na cama. Os cortinados estão fechados para que

não se perceba quem está lá dentro. Alípio quer dizer ao professor que não vá pintar o muro, que vai ser apanhado, mas as palavras não lhe saem da boca. Abraça-o como se ele fosse morrer. O professor afasta-o.

— O que se passa contigo? Vou só pintar umas coisas na parede. Não te

esqueças de, mal eu saia, abrir os cortinados e deixar o candeeiro da mesinha de cabeceira aceso. Tem de ser esse, para dar pouca luz e ficar a ver-se apenas a silhueta.